Um gênero em busca de novos horizontes

Série de seis apresentações no Sesc Consolação, Que Samba É Esse? mostra outros jeitos de batucar

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2008 | 00h00

O encontro do ritmo africano com a música européia no Novo Mundo - nome dado pelos descobridores à América - criou uma das cenas culturais mais criativas da história. Nessa esteira surgiram vários gêneros: do jazz e tango ao choro e samba. E as criações - e transformações - feitas a partir desse primeiro encontro não param, apesar dos defensores de uma suposta pureza musical. Por isso tem sentido a pergunta que dá nome à série de shows gratuitos no Sesc Consolação: Que Samba É Esse?.Às terças, quartas e quintas desta e da semana que vem, sempre às 19h30, os shows do Revista do Samba, T. Kaçula e Renato Dias, Paulo Padilha, Sinhô Preto Velho, Luama e Nhocuné Soul mostram diferentes estilos de conceber e fazer o samba.Hoje é a vez do Revista do Samba que vem com um novo projeto - em CD, documentário e revista -, que reúne composições que remetem ao bairro do Bexiga, ou Bixiga, só com i, como preferem. A importância cultural da região é exaltada ao se afirmar que o local é ''o berço sagrado do samba paulista'' (Chão do Bixiga, de Fernando Penteado e Elias Gomes). O Revista do Samba mostra o que faz o Bixiga ser o que é: a diversidade dada pela convivência dos escravos negros, dos imigrantes europeus e dos migrantes nordestinos.No Revista Bixiga Oficina do Samba, o grupo formado por Beto Bianchi (violão e guitarra), Letícia Coura (cavaco) e Vitor da Trindade (percussão) faz novos arranjos para sambas de Adoniran Barbosa, Henricão, Osvaldinho da Cuíca e Antônio Rago, entre outros. Eles selecionaram 22 entre 60 composições, que homenageiam de uma maneira ou de outra a arte criada a partir dos contatos feitos nas ruas e da entrega à vida boêmia.O CD também traz canções compostas para peças teatrais do Teatro Oficina - há 50 anos no bairro -, como O Meu Cavalo Tá Pesado (Zé Celso Martinez Corrêa), Anhangabaú da Felicidade (Zé Miguel Wisnik), Pra Ver a Luz do Sol (Edgar Ferreira), O Amor É Filho do Tempo (Péricles Cavalcanti, Marcelo Drummond, Nelson de Sá e Zé Celso).Amanhã os compositores T. Kaçula e Renato Dias lembram as origens rurais do batuque paulista. T. Kaçula é idealizador do projeto Samba Autêntico e Renato, um dos fundadores do grupo Sinhô Preto Velho, que está lançando o CD Ka''umondá. Eles resgatam composições de Talismã (Samba Através dos Tempos) e Geraldo Filme (Eu Vou Mostrar), além de tocar composições próprias e inéditas.O compositor Paulo Padilha lança o terceiro disco - Samba Descolado, Descolado Samba - nesta quinta. As 11 faixas são dedicadas a diferentes compositores, entre eles Lupicínio Rodrigues, Tom Jobim, Trio Mocotó, Bezerra da Silva, João Donato, o que dá a noção da influência ampla desse cronista, que se liga à tradição para falar da modernidade. Somente uma canção não é de sua autoria: Preconceito (Wilson Batista e Marino Pinto), que fala da discriminação racial.Formado por Renato Dias Douglas Favero, Luiz Reis, Marcos Tocha, Gabriel Spazziani, T. Kaçula, Síntia Piccin e Richard Oliveira, o grupo Sinhô Preto Velho apresenta o projeto Ka''umondá (Ladrão de Cauim) no dia 17. O CD tem todas as faixas compostas em tupi - e traduzidas -, língua indígena que serviu até para cantar o rap Anhangymuâ Iandé Oimosykié-E''ym (O Diabo Antigo Não Nos Assusta Mais). Sinhô Preto Velho faz uma celebração, usando samplers, da cultura religiosa afro-brasileira. Os elementos da natureza se mesclam sonoramente a um canto de denúncia de uma opressão secular. Aqui se dá o resgate, entre acordes e picapes, do espírito guerreiro e sofrido do índio tupinambá, vítima do etnocídio.No dia 18, a violonista e compositora Luama apresenta o repertório de Introdução Para Um Samba Novo. São oito canções de sua autoria, em que ela busca manifestar a universalidade do gênero nascido no Brasil. Como ela mesma afirma, seu trabalho tem por princípio quebrar barreiras de estilos e ultrapassar estereótipos musicais. A série de shows termina no dia 19 com o novo trabalho do grupo Nhocuné Soul: Amando e Sambando. Baseado na tradição black brasileira, o grupo (Renato Gama, Jhony Guima, Júnior Batucada, Luiz Couto, Ronaldo Gama e Tico Taques) faz uma poesia sobre a vida no subúrbio de São Paulo.

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