MARIO VIANA/ ESTADÃO
MARIO VIANA/ ESTADÃO

Um gêmeo high-tech para uma obra-prima do Renascimento

Grupo de engenheiros, técnicos, artesãos e restauradores italianos usará o que o coordenador do projeto descreveu como 'as tecnologias mais avançadas disponíveis hoje' para imprimir em 3D uma cópia exata da estátua de 5 metros

Elisabetta Povoledo, The New York Times

07 de outubro de 2020 | 10h00


FLORENÇA, ITÁLIA - Nos últimos cinco séculos, o Davi de Michelangelo Buonarroti tem sido celebrado por sua perfeição escultural e pela personificação da beleza e força juvenis.

Agora, as autoridades italianas querem que a escultura ajude a mostrar a técnica e habilidade high-tech italianas na era digital.

Nos próximos meses, um grupo de engenheiros, técnicos, artesãos e restauradores italianos usará o que o coordenador do projeto descreveu como "as tecnologias mais avançadas disponíveis hoje" para imprimir em 3D uma cópia exata da estátua de 5 metros. A réplica será ,então, a peça central do Pavilhão da Itália na próxima feira internacional, Expo 2020 Dubai, que estava originalmente programada para começar este mês, mas foi adiada para outubro de 2021 por causa da pandemia do coronavírus.

“É uma tecnologia ligada à memória histórica, para a memória do futuro”, disse Paolo Glisenti, o comissário-geral da Itália na exposição. “História e inovação - esses são os temas que nos interessam.”

As empresas italianas trabalharão em todos os aspectos do projeto, disse Glisenti: “A promoção da expertise científica e tecnológica italiana faz parte da operação”.

Ele estava falando da Galleria dell’Accademia, o museu de Florença que Davi chama de lar desde 1873, em um de uma série de eventos que estão sendo realizados na Itália esta semana para marcar um ano até a exposição.



Davi é indiscutivelmente a estátua renascentista mais famosa do mundo. A primeira estátua colossal feita desde a antiguidade, ela causou forte impressão tão logo foi inaugurada em 1504. Em sua biografia de Michelangelo escrita cerca de 50 anos depois, Giorgio Vasari a descreveu como uma obra de “justa proporção, beleza e excelência” que superou "todas as outras estátuas, modernas ou antigas".

Mesmo em um ano em que o turismo em Florença foi prejudicado pelo novo coronavírus, a estátua continua sendo uma atração poderosa.

“Ele é meu departamento de marketing”, disse Cecile Hollberg, diretora da Accademia, com uma risada. “Ele atrai visitantes e nós os conduzimos a todas as outras coleções que são excepcionais e esplêndidas.”



Embora não tenha sido movida há quase 150 anos, a estátua teve sua cota de drama. Ela foi danificada. Foi disputada. Tem estado no centro de controvérsias de direitos autorais. Foi limpa em 2004 por ocasião do seu 500º aniversário, em meio a uma disputa acirrada. Ela inspirou outros artistas e, em 2012, uma cópia gigante viajou até a cidade de Nova York. Mais recentemente, estrelou uma instalação de vídeo com padronagens de tecido.

Mas, acima de tudo, foi copiada. Repetidamente.

É uma das poucas obras de arte a ter um verbete da Wikipedia dedicado às suas réplicas, que enfeitam os lugares mais improváveis, como a entrada principal da prefeitura de Montevidéu, Uruguai; um parque comunitário em Queensland, Austrália; e o centro de Sioux Falls, na Dakota do Sul, nos EUA.



O molde de gesso da estátua no Victoria and Albert Museum, em Londres, atrai visitantes desde a sua chegada em 1857.

Até Florença tem duas réplicas. Uma, em mármore, foi colocada em 1910 em frente ao Palazzo Vecchio, a prefeitura de Florença, onde a estátua original foi inaugurada. Uma cópia de bronze também está erguida sobre a cidade na Piazzale Michelangelo, uma praça em uma colina alta.

O Davi impresso em 3D é a única cópia que o museu autorizou desde que Cecile venceu uma batalha de direitos autorais pela estátua em 2017. As incontáveis estátuas de plástico, ímãs de geladeira e camisetas coloridas aos montes nas prateleiras das lojas de souvenirs florentinas são tecnicamente "ilegais", ela disse. “Mas é difícil se aprofundar nessa questão.”

Vinte anos atrás, o departamento de computação gráfica da Universidade Stanford digitalizou Davi e fez uma cópia 3D usando tecnologias de prototipagem rápida que permitiam a produção de "réplicas precisas em escala reduzida”, disse por e-mail o líder do projeto, Marc Levoy, professor emérito de ciências da computação em Stanford.

A reprodução italiana aproveitará os avanços tecnológicos desde o projeto de Stanford, disse Grazia Tucci, professora da Universidade de Florença que está coordenando a criação do que ela chamou de "gêmeo digital" da estátua.

Usando scanners a laser e outros instrumentos “normalmente usados na indústria e também na engenharia aeronáutica” para produzir a maior resolução possível, a estátua original será digitalizada (às segundas-feiras, quando o museu está fechado ao público), disse Grazia.

Os dados serão processados e, depois, usados para criar a reprodução com “a maior impressora 3D do mundo”, junto com “materiais inovadores” e resinas, disse Grazia, embora ela tenha se recusado a especificar quais tipos de materiais seriam usados. “Ainda estamos em fase de testes”, afirmou.

A estátua será então polida - à máquina e depois manualmente - para alcançar uma superfície mais lisa, e os restauradores darão os retoques finais, incluindo colorir a cópia para refletir as tonalidades no mármore e “para dar ao trabalho um aspecto agradável do ponto de vista estético”, disse Grazia.



Todo o making-of da estátua será registrado em vídeo e mostrado aos visitantes da exposição em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, disse Glisenti, e a réplica será colocada no centro do pavilhão de vários andares da Itália para que os visitantes possam vê-la de diferentes ângulos e de diferentes alturas.

O processo criará um tesouro de dados que os técnicos passarão para a Accademia e que pode ser inestimável caso algo aconteça com a original. Essa possibilidade causou nova preocupação há vários anos, quando cientistas italianos publicaram um artigo sugerindo que colocar qualquer pressão em seus tornozelos já rachados poderia derrubar a obra-prima.

Por enquanto, os tornozelos estão bem, disse Cecile. "Tudo está sob controle."

A reprodução deve retornar à Itália assim que a exposição terminar, mas seu destino, por enquanto, é desconhecido.

High-tech ou não, a cópia nunca será igual à original, disse Cecile. “A original está em Florença desde 1504”, disse ela. “Uma cópia nunca durará tanto.”


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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