Um filme com a cara da Mostra

Bem-Vindo a São Paulo revela a metrópole por meio do olhar estrangeiro

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 00h00

Leon Cakoff gosta de dizer que Bem-Vindo a São Paulo, que estréia hoje, é um filme sem orçamento. Mas tinha de ser assim. A idéia surgiu há três anos, durante as comemorações dos 450 anos de São Paulo. A cidade é tão grande, um mosaico tão variado de imigrantes, de influências e culturas. Como se poderia retratar toda essa diversidade no cinema? Por meio do olhar estrangeiro, claro. ''''Em qualquer lugar é assim - o estrangeiro consegue captar coisas que escapam aos habitantes, porque, afinal, as pessoas não reparam no que faz parte do seu cotidiano'''', explica Cakoff. Um dos personagens mais conhecidos da cena cultural paulistana - criou a Mostra Internacional de Cinema, que ao longo de mais de 30 anos vem sendo referência no País e no exterior -, ele fez do seu evento um marco de defesa da diversidade. Um filme com o selo da Mostra não poderia ser diferente.Foi um filme feito por (e entre) amigos. Cakoff e sua mulher, Renata Almeida, não precisaram de muito esforço para persuadir os diretores estrangeiros, convidados da Mostra, a registrar seu testemunho sobre a cidade. Na maioria das vezes, os filmes foram feitos não apenas sem orçamento, mas também sem equipe. Os próprios diretores manejavam a câmera, uma mini-DV, e a equipe muitas vezes se resumia ao acréscimo de mais uma pessoa, geralmente um intérprete. Raros episódios precisaram mais do que isso. Daniela Thomas precisou armar um dispositivo para prender a câmera na frente de um carro; Kiju Yoshida necessitou de um tripé; Wolfgang Petersen, de um vôo de helicóptero. E só.O primeiro a gravar seu episódio foi Phillip Noyce, cineasta australiano que desenvolveu boa parte de sua carreira nos EUA. Quando aqui esteve, para mostrar Geração Roubada, Noyce disse que havia sido um bom soldado na guerra de Hollywood pela ocupação dos mercados de todo o mundo, com sucessos como os da série com o agente secreto interpretado por Harrison Ford, em Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato. Noyce teve carta branca - como os demais diretores - para filmar o que quisesse. Ele circulou pelo centro de São Paulo. Topou com a excursão formada por um grupo de estudantes do interior. Noyce descobriu a cidade com eles. Optou por filmar São Paulo do Marco Zero, na Praça da Sé.Todos os demais episódios foram sendo feitos com a mesma informalidade. ''''Quando convidamos o Wolfgang (Petersen), ele participava da campanha para que seu filme Adeus, Lenin fosse indicado para o Oscar'''', lembra Cakoff. ''''Wolfgang voou daqui para Los Angeles, mas prometeu voltar. Voltou em março do ano seguinte (2005), para concluir o trabalho.'''' Tsai Ming-liang fez o episódio dele horas antes de regressar a Taiwan. Como o acaso interferiu em vários dos filmes, ele encontrou um tanque de água - e todo mundo sabe como o diretor de O Rio é atraído pelo tema. O israelense Amos Gitai realizou seu curta, que não teve tempo de editar, mas deixou instruções que Leon Cakoff e Renata Almeida seguiram escrupulosamente.No total, são 17 episódios que retratam a grandeza e a miséria de São Paulo. Não possuem todos a mesma duração. Os mais curtos, em torno de 2 minutos cada, são de dois estreantes - o espanhol Max Lemcke e o italiano Andrea Vecchiato. O mais longo, o episódio do japonês Yoshida, com sua mulher Mariko Okada. A história daquela garçonete evoca os primórdios da colonização japonesa no Brasil, quando os japoneses, lembra Leon Cakoff , ''''vieram substituir os negros, como mão de obra barata, após a libertação dos escravos''''. Se o filme foi feito sem orçamento, a finalização, pelo contrário, teve de ser bancada. A Anhembi Turismo entrou com os recursos e a TeleImage foi decisiva no processo de finalização - afinal, o filme foi feito e está sendo exibido em digital.São 8 cópias em todo o País, incluindo duas em São Paulo, uma no Rio e as restantes em Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza e Brasília. O próprio Cakoff encarregou-se de dar unidade ao filme. Caetano Veloso - homenageado por Maria de Medeiros, que recita com emoção os versos de Sampa em seu episódio - foi chamado para fazer a narração. Por que? ''''Porque eu precisava de uma voz especial'''', diz Cakoff. André Abujamra fez a música, menos a do episódio de Daniela Thomas, assinada pelo irmão da diretora, o compositor Antônio Pinto. Bem-Vindo a São Paulo estréia com uma promoção atraente para cinéfilos. Você vê o filme, cria uma frase sobre a cidade, acrescenta o ingresso e concorre a duas permanentes da Mostra, em outubro.

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