Um exercício de estilo, mas também de dúvida e paixão

Dos atores que se lançam à direção, Selton Melo talvez seja o mais cinéfilo. Ao conduzir por alguns anos o programa de entrevistas Tarja Preta, do Canal Brasil, Selton viu-se motivado a ver quantidades industriais de filmes, preparando-se para conversar com seus convidados. Seja como for, é pessoa de rara cultura cinematográfica. Essa disponibilidade de referências é tanto o ponto positivo quanto a limitação de Feliz Natal.Ao mesmo tempo, essa cultura o sobrecarrega um pouco. A propósito dele, falou-se em "cacoetes do cinema de arte" e a crítica não deixa de ter lá sua razão, embora se deva dizer que nunca Feliz Natal naufraga na citação pela citação, nesse formalismo que é a doença infantil de um certo cinema contemporâneo (brasileiro, inclusive). Como ator que é, e bom ator, Selton sabe muito bem que todo exercício de estilo se torna estéril se não for movido por uma paixão interna, por uma dúvida, por uma inquietação, pela necessidade de exteriorizar sentimentos dos quais às vezes se conhece pouco. E Feliz Natal tem um pouco de tudo isso, o que lhe garante aquela sinceridade de propósitos que estabelece a ponte entre a tela e o público.Pelo menos um certo público, pois também se deve dizer que Feliz Natal não é filme fácil, palatável, "para toda a família", como talvez o título indique. Ao contrário. O título foi escolhido por ironia, porque o Natal que reúne a família dos personagens parece tudo, menos feliz. É até mais do que uma família disfuncional essa. Caio (Leonardo Medeiros) é dono de um ferro-velho que tem uma angústia localizada no passado. Na festa encontra com a mãe, alcoólatra vivida por Darlene Glória, a cunhada (Graziella Moretto) e o pai (Lúcio Mauro), que namora uma gatinha com idade para ser sua neta. Tudo respira um clima de angústia e de sexualidade reprimida. É nesse ambiente que Selton vai buscar um certo sentimento de classe média brasileira, num viés suburbano que lembra, também, o de Nelson Rodrigues, lido, por exemplo, por um Arnaldo Jabor. Essa miséria existencial contemporânea vai além das crises econômicas ou do sentimento de sacrifício que, historicamente, impregna a auto-imagem da classe média brasileira. Ela é, também, um caso psicológico - que Selton Melo se propõe a dissecar.É filme inspirado e promissor. Quando as referências se tornarem de fato incorporadas, ele poderá simplificar seu cinema. E torná-lo maior e mais leve, ainda que contundente. ServiçoFeliz Natal (Brasil/ 2008, 106 min.) - Drama. Dir. Selton Mello. 14 anos. Cotação: Bom

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