Um estudo sobre o espírito criativo e libertário do cinema

Reserva Cultural dedica sua nova edição à indústria cinematográfica, discutindo a produção realizada fora de Hollywood

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

02 Fevereiro 2008 | 00h00

O número 2 da revista Reserva Cultural (Lazuli Editora, 74 págs., R$ 10,90) é sobre cinematografias. No tempo da uniformização da cultura e da globalização econômica, levadas a cabo por um ideário que não permite o dissenso, a publicação aposta na diversidade. O direito à expressão dos contraditórios tem de ser conquistado. O espírito criativo e libertário não nasce da inexplicada combustão, mas do ardor da batalha, sempre dolorosa, contra a dominação.Apesar da mão onipresente, porém injusta, do mercado, da vocação de estrutura industrial a serviço da massa, o cinema promove pelo mundo possibilidades de respiro e renovação.Tanto é assim que a matéria de capa se chama Atlas do Cinema Mundial. Seu subtítulo é mais do que explicativo: como os países reagem a Hollywood. O assunto candente foi debatido em seminário realizado recentemente no cinema Reserva Cultural (Av. Paulista, 900).Ao lado de números sobre a produção cinematográfica pelo mundo, da França ao Egito, do Irã à Tailândia, aparecem as análises e as opiniões de cineastas, professores e críticos, entre os quais Carlos Reichenbach, Alejandro Jodorowsky, Ismail Xavier, Walnice Nogueira Galvão e os críticos do Estado Luiz Carlos Merten e Luiz Zanin Oricchio.O debate se faz mais interessante porque não está confinado apenas a reflexões sobre questões estéticas, mas entra pela senda aparentemente mais comezinha: a inserção de uma arte em um mundo que funciona sob a lógica implacável da busca do lucro. A discussão passa por temas importantes como público, distribuição das películas e ocupação de salas. Nessa perspectiva, deixa de soar absurdo o questionamento sobre se o cinema pode seguir modelos de realização que envolvam o Estado ou a iniciativa privada.SURREALISMOInteressantes pelo que revelam sobre a contemporaneidade se aproveita do lançamento em DVD de Os Guardiães do Dia, de Bekmambetov, para falar de modo conciso sobre o cinema russo. Começando pelo pioneiro Eisenstein até Sokurov (Arca Russa), cineasta que produziu sobre os escombros da União Soviética sua reflexão, demonstra que o cinema anda preocupado com a relação entre pai e filho, que é a da procura. Walnice incute, por tabela, a dúvida sobre o porquê de os seres humanos estarem cada vez mais angustiados com a hegemonia e o autoritarismo.

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