Um enigma geopolítico ainda difícil de decifrar

Sua ironia torna a 'assimilação cultural' um processo complicado de atestar

Antonio Pedro Tota, O Estadao de S.Paulo

07 de fevereiro de 2009 | 00h00

Em jornais americanos do fim do século 19 e começo do 20, a América Latina era apresentada, de forma alegórica e caricatural, como entidade única. Abaixo do Rio Grande encontrava-se a massa de mestiços, índios, mulheres e crianças. Um pequeno jornal de Nova York, o Utica Saturday Globe, de 1911, publicou uma caricatura que demonstra claramente a imagem que os americanos faziam dos vizinhos do sul. À direita, dois homens famosos: o magnata Andrew Carnegie, secundado pelo gordo presidente Taft. À esquerda, um grupo de vários homens liderados pelo presidente do México agraciando Carnegie com uma comenda. Todos os participantes do grupo à esquerda, sem exceção, usavam sombreros e sarapes (o poncho mexicano). E, para ajudar o leitor americano, nos respectivos sombreros, estavam escritos o nome de cada país representado no encontro. Lá estavam o Brasil, mexicanizado, uma Argentina, também mexicanizada e, claro, o próprio México entre Costa Rica, Bolívia, Colômbia, Chile, etc.Pouco antes da Guerra Hispano-Americana de 1898, Cuba foi, muitas vezes, representada por uma mulher sensual sendo salva pelo paladino da liberdade, o "noble hero", Tio Sam, lutando contra o vilão espanhol, como numa ópera-bufa. O cônsul americano no Rio de Janeiro, em pleno governo de d. Pedro II - que depois foi recebido pelo presidente Grant para inaugurar a Exposição da Filadélfia em 1876 -, mandou um relatório - citado pelo historiador americano Lars Schoutz - para Washington: "a monarquia portuguesa degenerou para uma efeminação e voluptuosidade... Dificilmente uma sociedade em pior estado pode ser encontrada em algum lugar além deste país; onde o clima também excita a todo tipo de depravação e delinquência". Era mais uma preleção moralista do que um relatório diplomático. Richard Morse, outro historiador americano, talvez concluísse que o cônsul estava reprimindo sua vontade de entrar no clima de "efeminação e voluptuosidade".E foi o próprio Richard Morse, que não era brasilianista, mas sim um culturalista, quem indicou a necessidade de evitar interpretações como a do cônsul ou as dos jornais americanos, eivadas de racismos e eugenismos já notados nas teses civilizadoras do Destino Manifesto. Morse parece ter sido "mordido" pelo ibero-americanismo em Nova York, pouco antes dos EUA entrarem na 2ª Guerra. Matthew Shirts, fiel seguidor do morseanismo conta uma história curiosa: Morse revelou que seu interesse pela América Latina começou quando foi à Broadway ver um show, provavelmente o Streets of Paris. Ele ficou impressionado com uma dançarina que mexia com os quadris, sem o exagero de uma dança do ventre, mas com muita, muita sensualidade. Era Carmen Miranda. Depois disso, Morse foi convocado para lutar com as forças americanas e "making the world safe for democracy", como ele ironizava. Quando voltou, começou a pensar que a América Latina - ou melhor, a Ibero-América - não deveria se mirar no espelho do irmão gigante e rico do norte. No entanto, a imagem de Carmen como a "Brazilian Bombshell", codinome que as feministas americanas até hoje repudiam, prevaleceu como o modelo generalizado da própria América. Talvez não só a América Latina, mas de toda a América. Se alguém procurasse, com cuidado, na cesta/turbante de Carmen, poderia encontrar frutas, pássaros, e outros bichos de todo o continente americano. Mas alguém como Vinicius de Morais e seu amigo americano Waldo Frank não podiam engolir essa ideia. Vinicius achava Carmen um fenômeno de massas que perdeu toda a identidade. Ele fez uma avaliação, com fina ironia, nada lisonjeira da atriz quando escreveu a crítica sobre o Uma Noite no Rio, de Irving Cummings, de 1941. Entre uma trapalhada e outra, Carmen canta, acompanhada pelo Bando da Lua, em night clubs e em mansões de ricos financistas. "Carmen Miranda aparece como qualquer coisa de exótico, agreste, escarlate. Fala e faz mais trejeitos que um esquizofrênico sob choque de cardiasol. Pensando bem, Carmen Miranda é um hindu, mais que uma brasileira. São turbantes coloridos, braços como serpentes, mão como cabeças de najas. É tão prodigioso, que Carmen Miranda não consegue apenas ser hindu - consegue ser o hindu e a serpente, coisa que em matéria de iogue é da mais alta importância."Tanto para Vinicius como para Waldo, a atitude de Carmen era a de alguém que havia se rendido à máquina hollywoodiana de fazer dinheiro. Eles não podiam perceber que ela, a seu modo, resistia à americanização já anunciada em 1940, no Cassino da Urca, com Disseram Que Voltei Americanizada, o samba resposta de Vicente Paiva e Luís Peixoto, no famoso incidente da relação entre a plateia e a cantora. Talvez o antiamericanismo de Carmen não estivesse em nenhuma grande manifestação pública de nacionalismo. Talvez a resistência sutil fosse a forma encontrada para suportar a máquina americana do show business. No filme produzido pelo Army Pictorial Service, da série GI Weekly, o jornal cinematográfico semanal para os GI (soldados) americanos no front, Carmen se mostra com uma irreverência que, vista hoje, requer uma nova análise do significado da "Brazilian Bombshell". O filme de 1942, em branco e preto, começa com Carmen saindo de trás de um biombo. O Bando da Lua, embora presente e com roupas de uma orquestra de congas ou rumbas, quase que desaparece sob "coqueiros" e "árvores" do cenário. Ela começa cantando, em alta velocidade, Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu. Depois se apresenta com um discurso, em português, para os soldados americanos: "Alô! Amigos, eu e meus rapazes estivemos em hospitais...". Richard Lane, fazendo o papel de mestre de cerimônia, interrompe Carmen. "Miss Miranda". O i de Miranda é quase um a: "Miss Maranda", repetiu. Ela responde muito rapidamente em português. "O que você quer? Agora não posso, estou ocupada". Então Lane consegue se fazer ouvir: "A senhora está falando para americanos!" "Oh! I forgot", responde ela. E começou a falar numa língua própria que não era nada próximo de inglês. Novamente Lane pede para ela falar em inglês. Ela se propõe a cantar uma conhecida canção da época que começa com a repetição da interjeição ai (ye, em inglês) até se transformar no pronome eu (I em inglês) e vira um ai, ai, ai love you very much e assim por diante. Até chegar numa parte em que ela gesticula em torno de seus próprios quadris, oscilando levemente, e pergunta : "do you like my hips?" (você gosta de meus quadris?). E num jogo de palavras, em inglês, muda para "hipnotizado" (em inglês, hypnotized). O professor Richard Morse pode também ter visto este filme no front e apanhado pela armadilha da memória. Nunca iremos saber. Mas de qualquer forma ele tinha razão. Carmen provocava a audiência. Mas o fazia com uma leve e elegante ironia, uma pronúncia com o sotaque forçado, um gesto com as "mãos de naja". Na canção seguinte, K-K-K-Katy, uma marcha popular entre os GIs, ela começou com um trecho improvisado em português: "Pegando a cuíca/ me dá um pandeiro/ Eu sou brasileira/ Morena faceira/ Não posso negar". Era irreverência pura. Desobedecia as "ordens" do mestre de cerimônias, que insistia gritando do fundo do palco "English!", "English!". Só então ela começou a cantar, e em um bom inglês. Ela estava realmente sendo trucidada pelo Moloch hollywoodiano. Mas entrou na máquina fazendo piada. Pelo menos nas telas. Pelo menos nas representações. Rimos dos seus trejeitos e de suas trapalhadas com a língua e com os gestos. Vou me valer dos estudos de Luís da Câmara Cascudo para pensar o fenômeno: não podemos dizer que Carmen se americanizou. Assimilou, mas não imitou. Assimilação cultural não se faz por imitação, mas por um complicado processo de recriação. A assimilação cultural nunca ocorre em bloco. Carmen continua difícil de decifrar. Antonio Pedro Tota, historiador e professor da PUC-SP, é autor de O Imperialismo Sedutor

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