Um encontro não de autores, mas leitores

Diferente da Flip de Paraty, São Paulo aposta mais nos livros que em nomes

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2008 | 00h00

Ao contrário da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a Bienal do Livro depende menos de autores e mais de livros. Com 350 expositores que representam mais de 900 selos editoriais - isso num país que tem apenas 2.600 livrarias - , a bienal é quase um teste de mercado, um "book drive" para que as grandes redes definam os próximos passos num mercado que cresce 10% ao ano (faturou R$ 2,5 bilhões em 2007). E esses próximos passos serão decisivos para as redes que apostaram no boom imobiliário e abriram lojas em shoppings ou próximas a condomínios de classe média, o segmento que mais consome livros no Brasil - em todo o caso, um número nada impressionante, algo em torno de dois livros por cabeça pensante ao ano, em média. Redes do Sul, como a Curitiba, já colocam os pés fora de casa, abrindo lojas em São Paulo, incentivadas por uma mudança na linha das grandes editoras, que abrem selos menores para conquistar um público pouco familiarizado com o universo literário.Isso explica, por exemplo, a presença tímida da alta literatura entre os lançamentos. As editoras preferem reservar os títulos e autores mais difíceis para a Flip. Mal comparando, a Flip seria o Festival de Cannes e a Bienal do Livro, a festa do Oscar, com obras de caráter mais popular ou de apelo fácil, como A Era dos Assassinos (Record), do russo Yuri Felshtinsk. Ele é autor de outro best-seller, A Explosão da Rússia, escrito em parceria com um ex-espião da KGB, Alexander Litvinenko, morto por envenenamento radioativo em 2006. Felshtinsk vem a São Paulo promover a história de uma corporação secreta que Putin teria encoberto. A Record traz outros quatro convidados estrangeiros.A produção de livros para grandes massas de leitores é uma tendência que parece irreversível no Brasil, impulsionada pela concentração de mercado e o comércio virtual. Enquanto diminui o número de pequenas livrarias, aquelas em que os donos sabiam o que estavam vendendo e, mais ainda, o que compravam, cresce o número de leitores de best-sellers, livros de auto-ajuda e literatura mediana, antes confinada ao formato de bolso e hoje embalada em papel de primeira. E são 210 mil títulos à venda nesta bienal, dos quais 4.100 lançamentos. Tudo para conquistar 800 mil pessoas, das quais quase um quarto de crianças em idade escolar e adolescentes.Em todas as bienais, as editoras tentam encontrar um sucedâneo para O Código Da Vinci, lançado pela Sextante. Ela, por exemplo, aposta no suspense de John Sack, A Conspiração Franciscana. O autor vem ao Brasil lançar sua ficção sobre seguidores de São Francisco que esconderam segredos do santo. Sério candidato ao posto de Dan Brown.

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