Um domingo agitado, na casa do filme brasileiro

O Cine Odeon BR abriga as sessões de Rita Cadillac - A Lady do Povo e da versão restaurada de A Idade da Terra

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

02 de outubro de 2007 | 00h00

No domingo à tarde, Rita Cadillac subiu ao palco do Cine Odeon BR para a exibição, a preços populares, do documentário de Toni Venturi que leva seu nome, com o acréscimo de A Lady do Povo, no título. Rita contou que nasceu ali perto e passou a infância mais perto ainda, na Rua Evaristo da Veiga, a rua do quartel, que sai em frente do Teatro Municipal, em plena Cinelândia carioca. A 50/100 metros dali está o Cine Odeon, onde Rita passou boa parte de sua infância e adolescência, vendo filmes. ''''Nunca imaginei que um dia pudesse estar nesta tela'''', ela revelou, emocionada.À noite, no mesmo Odeon BR, Ilda Santiago, diretora de programação do Festival do Rio, também subiu ao palco para a apresentação da versão restaurada de A Idade da Terra. Ela disse que, todo ano, o festival exibe em torno de 400 filmes, mas sua força está no cinema brasileiro. Quando é este o assunto, não se pode deixar de pensar em Glauber, o baiano incandescente, que morreu em 1981, aos 42 anos. ''''Este cinema é a casa do cinema brasileiro. É a casa de Glauber Rocha'''', ela proclamou, admitindo-se também emocionada.Foi um dia de muitas emoções no Festival do Rio 2007. Havia meia sala para ver Rita Cadillac - A Lady do Povo, à tarde. À noite, a sala lotou. Rita foi ovacionada. Havia muita gente para ver A Idade da Terra, à noite, na seqüência de Rita Cadillac, mas a sala também não lotou. Paloma Rocha, filha de Glauber e diretora do trabalho de restauração, chamou familiares, amigos e colaboradores ao palco para a celebração de A Idade da Terra. Há 27 anos, o filme foi rechaçado no Festival de Veneza. No mês passado, decorridas quase três décadas, A Idade da Terra voltou ao Lido, para encerrar a mostra cinematográfica deste ano.Glauber não queria que os rolos contendo seu filme fossem numerados e também não queria letreiros no começo nem no fim. Sua idéia era que os operadores das salas pegassem os rolos aleatoriamente e montassem na hora o filme que o público ia ver. Glauber inventou a interatividade? A empresa produtora Embrafilme exigiu que sua marca aparecesse no começo - Embrafilme apresenta... - e que houvesse uma indicação de fim. A restauração toma licença e acrescenta o letreiro final que Glauber não queria. Mais, até, do que em Terra em Transe, o autor leva aqui ao limite a descontinuidade, como proposta estética e política. No DVD, que sai em dois meses, o espectador vai poder montar o filme como quiser, do jeito que quiser.Isso é verdade em termos - A Idade da Terra evolui por blocos. Percebe-se uma tentativa de pensar o País e de reinterpretar o Novo Testamento, com a presença de um Cristo afro-índio que faz o enfrentamento com o mundo do capital e da política. O filme continua difícil como há 27 anos, mas é Glauber, o mais polêmico autor do cinema brasileiro. Se o espectador não faz/refaz a montagem, cai-se facilmente na retórica do filme hermético e incompreensível. Uma voz anônima gritou, no fim da sessão - ''''Viva Glauber, abaixo a hipocrisia!'''' Qual hipocrisia? De quem, e por quê? A Idade da Terra está de volta, não para esclarecer, mas, de novo, para confundir. Como Glauber queria, com certeza.

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