''''Um disco precisa contar uma história e ter coesão''''

Hamilton de Holanda[br]BANDOLINISTA

O Estadao de S.Paulo

19 Janeiro 2008 | 00h00

Nascido no Rio de Janeiro, em 1976, o bandolinista Hamilton de Holanda é considerado uma das grandes revelações da música brasileira. É filho do violonista José Américo de Oliveira, a quem deve os rumos de sua carreira musical. Com 1 ano, mudou-se para Brasília. Começou a tocar bandolim aos 6, formando o Dois de Ouro com o irmão, o violonista Fernando César. Em 1995, foi considerado melhor intérprete no 2º Festival de Choro do Rio de Janeiro, no qual interpretou o choro Destroçando a Macaxeira, título do CD lançado com o irmão em 1997. Depois vieram A Nova Cara do Velho Choro (1998) e Dois de Ouro (2000). Hamilton atuou com Hermeto Pascoal, Zélia Duncan, Marco Pereira, Marcos Ariel e Rosa Passos. Lá fora dividiu o palco com o acordeonista Richard Galliano e o baixista John Paul Jones. Lançou, em 2006, o CD Brasilianos, com as obras Pedra da Macumba, 01 Byte 10 Cordas e O Hermeto Tá Brincando. No ano passado, após ser premiado como melhor solista, na quinta edição do Prêmio TIM, lançou Íntimo, com as composições Gratitude, Saudade Amor e A César o Que É de César, dedicada ao irmão Fernando César. Hamilton tocará seu bandolim de 10 cordas ao lado de Yamandu Costa (violão 7 cordas) hoje, às 18 h, no Auditório Ibirapuera (tel.: 5908-4290). Durante o show, será gravado o CD Encontro. Qual disco ou música mudou sua maneira de ver o mundo? Angelus (1993), do Milton Nascimento. Eu o conheci num momento especial da minha vida, quando estava morando sozinho na França, em 2002. Ouvi muito esse disco, que transformou minha maneira de ver a vida, ao mesmo tempo em que eu vivia uma mudança pessoal. Qual foi o artista que mais influenciou a sua carreira? Meu pai, o José Américo. Ele me influenciou porque foi quem mais me incentivou e quem vi primeiro tocar. Ele era multiinstrumentista. Deu os meus primeiros instrumentos. Apesar de ter sido feito tudo para eu ser músico, ele o fez naturalmente, viu que eu tinha facilidade de pegar as músicas de ouvido. Mas nunca me obrigou. Ele até achava que eu poderia trabalhar na Marinha, como ele trabalhou. Que obra (CD, composição) você detestou à primeira vista e passou a venerar depois? Antigo (2002), do pianista cubano Gonzalo Rubalcaba. Não cheguei a venerar, mas gosto muito. Quando ouvi, achei estranha a mistura de sons - da percussão com teclado -, não me era agradável. Depois de um ano, eu passei a entrar na onda do trabalho. Qual disco ruim você adora ouvir, mas tem vergonha de dizer que gosta? Não tenho vergonha de dizer o que ouço. Qual disco você comprou levado pela opinião alheia e odiou? Os que me indicam ou os que me agradam quando leio uma crítica eu normalmente gosto. Que música de outro você gostaria de ter composto? Não tem nenhuma, apesar de adorar os compositores brasileiros, não sinto essa vontade. A minha busca é por criar algo pessoal. Qual disco de sucesso deixa você com inveja por não tê-lo feito? Eu uso os discos como referência, mas não a ponto de querer ter feito. Qual canção considerada clássica mereceria uma letra melhor? Até um tempo atrás, prestava muito atenção na música e depois na letra. Quando percebo a letra, já estou gostando da música. E não acho que o meu julgamento tem validade. Qual disco você acreditou que seria ótimo e frustrou suas expectativas? Eu ganho muito disco no final de shows, mas as pessoas me falam deles com empolgação tremenda, depois vou ouvir e não é nada do que falaram. Qual disco fez você passar uma noite em claro analisando o que tinha ouvido? João (1991), do João Gilberto. Coincidiu com a época da adolescência, com 14 anos, eu estudava violão. Os aparelhos de CD estavam chegando às casas brasileiras e foi o primeiro que chegou à minha casa. Fiquei chocado, dormia ouvindo, escrevia todas as cifras, tentava tirar as notas igualzinho. Você é mais Jacob do Bandolim ou Luperce Miranda? Por quê? Jacob do Bandolim, porque ele é mais completo do ponto de vista técnico. É um grande compositor e arranjador. Ele fazia os arranjos do Conjunto Época de Ouro. E tinha uma visão global da música. No resultado final Jacob chegou a uma obra completa. Luperce Miranda tinha o mesmo talento, mas bruto, que não foi lapidado. De qual compositor(a), grupo ou cantor(a) você tem todos os discos? Todos do Jacob do Bandolim, do Milton Nascimento e do Hermeto Pascoal. Qual a melhor e a pior regravação de um clássico da MPB? A música Lembra de Mim, do Ivan Lins , no disco Contemporâneos (2003), do Dori Caymmi. Aponte um disco que considera um clássico instantâneo. Não estava vivo, mas Elis & Tom (1974) nasceu clássico. E outro, lançado nos últimos dez anos, que está entre os melhores de todos os tempos. Wide Angels (2003), do saxofonista norte-americano Michael Brecker. Ele gravou com 15 músicos de uma orquestra. Eu fiquei chocado quando vi um show dele em Paris. Qual foi o show que mais marcou sua vida? Quando vi Hermeto Pascoal tocar ao vivo pela primeira vez, em homenagem ao Gonzagão. Qual cantor(a) é melhor do que os discos que grava? Quase todos. Instrumentista também. A apresentação ao vivo é impagável, apesar de os discos serem capazes de registrar momentos lindos. Qual o erro mais constante - e que jamais cometeu ou cometeria - em discos de artistas que você gosta? O que me incomoda muito é o disco salada, que pretende seguir um conceito perfeito e se perde ou que o músico queria mostrar várias vertentes e não sai coisa boa. Um disco precisa contar uma história e ter coesão. Busco isso no meu trabalho. Que músico você admira por combinar atitude e qualidade artística? Meu amigo Yamandu Costa. Qual bom disco mal gravado que mereceria ser refeito hoje pelo artista original? Eu não gosto da mixagem dos discos da Tropicália. Se fossem feitas remixagens, eles ficariam mais lindos. A gente percebe a qualidade das músicas, mas o registro me incomoda um pouco. Galeria Angelus, de Milton, mudou seu modo de ver o mundo. Michael Becker: Wild Angels está entre os melhores discos. Jacob do Bandolim: ele tem a visão global da música. João Gilberto: influência no estudo do violão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.