Um difícil e delicado acerto de contas com o passado

Delicadeza talvez seja a palavra melhor para definir este drama familiar chamado Há Tanto Tempo Que Te Amo, do estreante Philippe Claudel. Em magnífica interpretação, a britânica Kristin Scott Thomas (de Lua de Fel e O Paciente Inglês) faz a misteriosa Juliette, que chega da Inglaterra para morar com a irmã caçula, Lea (Elsa Zylberstein), na cidade natal das duas, na França.Sabemos que algo de incomum aconteceu com Juliette, mas isso só será descoberto ao longo da história. Haverá mais surpresas e um desfecho que talvez enfraqueça o todo. Mas o que fica do filme é outra coisa. Em especial a sutileza com que se faz esse ajuste de contas entre irmãs há tanto tempo separadas e que talvez tenham muito a dizer entre si. Centrado na subjetividade dos personagens, é o tipo de filme que valoriza bastante os diálogos mas, acima deles, os silêncios e os subentendidos.Será, então, uma obra que aposta em climas, em alusões, em um mistério que vem do passado e sobre o qual as pessoas evitam falar. Pelo menos até certo ponto. Porque depois ele será revelado e suas consequências se farão notar.É pena que, nesse meio tempo, uma atmosfera mais pesada se instale e haja pouco espaço para o humor. A não ser numa situação, bem interessante aliás, quando Juliette é instada a revelar seu segredo e o faz com tanta naturalidade que todos pensam que está mentindo, ou fazendo graça. Todos, com exceção de um personagem masculino que, perspicaz, intui que ela se esconde melhor justamente porque diz a verdade.Pena que tudo "se explique" no final, com uma justificativa normalizadora que tira a estranheza da conduta humana insinuado ao longo do filme. É como finalizar uma música dissonante com um acorde quadrado.

Crítica Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

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