Um diário russo contra a indiferença

Em últimos textos, repórter Anna Politkovskaya, crítica feroz do regime de Vladimir Putin, se recusa a olhar para o outro lado

Caio Blinder, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Provavelmente foi uma coincidência mórbida. O assassinato de Anna Politkovskaya aconteceu no ano passado, em 7 de outubro, dia do aniversário do presidente russo Vladimir Putin, seu alvo obsessivo e furioso. Ela era uma jornalista sem medo, apesar de viver em um ambiente perigoso, de intimidação e cercada de inimigos nos círculos de poder por seu trabalho investigativo na Novaya Gazeta, uma pequena mas corajosa publicação, envolvendo reportagens e comentários ácidos sobre corrupção, os horrores da guerra na Chechênia, abusos dos direitos humanos, roubalheiras eleitorais, as mentiras do governo e o crescente mando imperial de Putin.Pouco antes de ser baleada no elevador do edifício onde morava em Moscou, Anna Politkovskaya, que tinha 48 anos, terminara seu diário sobre um período sombrio da história do seu país, entre dezembro de 2003 e agosto de 2005. Movida por altos preços do petróleo e cinismo popular, a Rússia de Putin continua no escuro, mas este testamento de Anna Politkovskaya, Um Diário Russo (Rocco, 360 págs., R$ 43), ilumina os descaminhos de um país. Que coisa patética. Ao lado de Putin em uma entrevista coletiva à imprensa, em junho de 2001, George W. Bush disse que olhara na alma do presidente russo e vira um bom homem. Anna Politkovskaya olhou muito mais profundamente e viu um déspota. Desde que ele assumiu o poder em 2000, 13 jornalistas foram assassinados na Rússia. Infelizmente, Putin tem razão em um ponto. O presidente afirmou depois do assassinato de sua adversária, que ela exercia "mínima influência" no país. É verdade. O impacto das denúncias de Anna Politkovskaya sempre foi maior no exterior. Na tradição de um Soljenitsyn, seu testemunho não é para consumo doméstico. Isto não quer dizer que a história não esteja do lado desta que ficou conhecida como a "consciência moral perdida da Rússia". Curiosamente, Anna Politkovskaya se esconde na narrativa, embora como jornalista seu hábito fosse escrever na primeira pessoa. Obviamente não se trata de medo pessoal. No posfácio com o título-pergunta Estou com Medo?, Anna Politkovskaya relata seu temor pelo o que vai acontecer na Rússia e não com ela. Mas vamos ao início.O diário começa em 2003 quando o partido nacionalista de Putin, Rússia Unida, atropela a oposição e vence as eleições parlamentares. A prisão do magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, que chegara a ser o homem mais rico do país e ousara desafiar o poder do presidente, é um alerta definitivo sobre o que se passava na alma política de Putin.O triunfo despótico se consolida nas eleições presidenciais do ano seguinte. Capítulos adiante, Anna Politkovskaya abandona a análise política e mergulha na reportagem, detalhando o caos da guerra da Chechênia, um processo de corrosão que culminou em setembro de 2004 na tomada da escola em Beslan por separatistas, que deixou mais de 400 mortos, mais da metade crianças. O massacre foi a justificativa para Putin cancelar eleições para governador. É nos relatos sobre Beslan que Anna Politkovskaya poderia ter sido mais pessoal, embora seja pungente o espaço que ela fornece aos parentes das vítimas. Mas sua experiência direta foi marcante, inclusive com seu alegado envenenamento durante um vôo para a região para que não pudesse cobrir e mediar a crise.Embora Putin fosse o principal adversário, Anna Politkovskaya teve perspicácia para perceber que a condição doente do seu país não é trabalho sujo de apenas um homem. Ela distribui a culpa com irritação e condescendência. A impaciência com a oposição liberal e o povo em geral é repetitiva. Exasperada, Anna Politkovskaya escreve: "Parece que o povo simplesmente desistiu, como se dissesse: e daí? A Rússia recaiu na hibernação sociopolítica, em um novo período de estagnação, cuja profundidade pode ser julgada pelo fato de que nem mesmo a tragédia de Beslan, um cataclismo de proporções bíblicas, pôde incomodá-la".O ranço de Anna Politkovskaya também incomoda, mas é difícil não compartilhar sua repulsa pelo "bacanal de indiferença" que assola a Rússia. O relato é apimentado por doses de humor negro. No último dia do diário, 31 de agosto de 2005, ela escreve que "nossa revolução, se vier, será vermelha porque os comunistas são quase a mais democrática força no país e porque será sangrenta".O diário não termina com ritualísticas palavras de otimismo. Ela observa o seguinte: "As pessoas freqüentemente me dizem que eu sou uma pessimista; que eu não acredito na força do povo russo; que eu sou obcecada na minha oposição a Putin e não vejo nada além daquilo. Eu vejo tudo e este é o problema todo". Anna Politkovskaya via tudo e por esta virtude pagou com a vida.

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