Um desfile de credos literários

Coletânea traz reflexões sobre texto de Horacio Quiroga a respeito do conto, gênero que o consagrou

Wilson Alves-Bezerra, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

O contista uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937) já era, em meados dos anos 20, um escritor maduro e popular - mas estava longe de ser uma unanimidade entre seus pares, principalmente no caso dos jovens. Havia publicado a quase totalidade de seus contos em revistas e jornais de grande circulação da Argentina, onde vivia, e, na época, imberbes vanguardistas locais, como Jorge Luis Borges e Oliverio Girondo, declaravam, nas páginas da revista Martín Fierro, que tinham asco das edições baratas e da popularização da literatura. Anos depois, outro argentino, Adolfo Bioy Casares, dedicaria seu tempo livre a escrever versinhos de escárnio a Quiroga em seus diários íntimos, aos quais hoje o leitor pode ter acesso no livro Descanso de Caminantes. Na década de 90, o cubano Guillermo Cabrera Infante declararia que na infância lera os contos de Quiroga e acreditara neles, mas que não voltaria a lê-los "nem amarrado". Essas são algumas reações salutares à ficção de Horacio Quiroga que dão a medida dos afetos despertados pelo controverso uruguaio.Pois nos anos de 1927 e 1928, quando via as portas de grandes veículos, como La Nación, se fechando para ele, com a ascensão dos novos talentos, Quiroga começa a publicar uma série de artigos fazendo um balanço de sua carreira, discutindo direitos autorais e - mais importante - refletindo sobre a escrita literária. Estes últimos textos - que tomam como ponto de partida Filosofia da Composição e Hawthorne, do norte-americano Edgar Allan Poe - são impagáveis conselhos, dicas, truques, mandamentos e receitas para o "passatempo das muitas pessoas cujas ocupações sérias não as permitem se aperfeiçoar em uma ocupação mal paga e nem sempre bem vista". Por essa frase já se nota a marca mais forte de tais artigos: o humor.É justamente a essa série que pertence o texto Decálogo do Perfeito Contista, que dá título à publicação agora lançada pela L&PM. Mas o livro da editora gaúcha, apesar do que indica a capa, não é uma obra de Horacio Quiroga e sim um trabalho feito a partir dela. Partindo da instigante pergunta sobre o que motiva uma escrita literária, e como ela se dá, os organizadores do volume, Sergio Faraco e Vera Moreira, convocaram alguns autores brasileiros para "debaterem" cada um dos mandamentos do célebre Decálogo de Quiroga. Entretanto, é na sensível passagem da escrita para a leitura que este livro mostra a natureza de sua fatura. O exercício autoirônico do uruguaio naquela série de textos que, nas palavras de Julio Cortázar, traz uma "piscadela ao leitor", é lido de modo literal por Faraco e Moreira, que afirmam com todas as letras que "Quiroga escreveu o Decálogo a sério". E ao fazerem tal afirmação terminam por deitar fora o principal: que o Decálogo del Perfecto Cuentista é uma obra literária construída a partir da ironia, e não um tratado ou um texto teórico sobre o conto. O caminho escolhido pelos organizadores é justamente o de não considerar o aspecto de criação literária do Decálogo de Quiroga - que se inscreve na longa tradição do relato metaliterário, na qual se incluem textos como Filosofia da Composição de Poe, Pierre Menard, Autor do Quixote, de Borges, e Nome Falso, de Ricardo Piglia.Com o pressuposto da literalidade, o objetivo do livro de Faraco e Moreira será "convocar renomados escritores brasileiros para uma discussão sobre a vigência ou não desse legado de Quiroga". Ou seja, o Decálogo é reduzido a um conjunto de ideias questionáveis sobre a escrita - e sua sutileza e concisão cedem lugar para a exegese. Com uma discussão nesses termos, o livro perde muito do seu prometido vigor, abrindo espaço para que alguns dos comentadores caiam no protocolar "concordo", "não concordo". O lado positivo é que cada um dos autores vai enunciando, à sua maneira, seu credo literário, declinando seus próprios deuses, declamando seu próprio credo literário. Alguns vão além e, ao responderem, fazem literatura.A edição traz ainda, na seção O Ofício da Escrita, uma vasta bibliografia comentada. A seleção, cuja marca é o ecletismo, passa por Sade, Gorki, Calvino, Bloom, Moretti, etc., mas - paradoxo dos paradoxos - não cita o fundamental Los Trucs del Perfecto Cuentista y Otros Escritos, coletânea dos textos do próprio Horacio Quiroga sobre literatura, que seria o mote da publicação. Pode-se supor que os organizadores não quiseram citar uma edição em espanhol, dado que as demais referências figuram em português. Teria sido então mais generoso com o leitor incluir outros textos traduzidos de Quiroga sobre o conto, além do Decálogo. Wilson Alves-Bezerra, tradutor e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos, é autor de Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/Fapesp)

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