Um deserto onde os rastros não se apagam

O premiado Olha Como Eu Te Amo, de Luis Leante, narra a história de um amor fracassado em ex-colônia disputada no Saara

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

Olha Como Eu Te Amo trata de dois desertos sem a pretensão de afirmar qual é o maior, se o do Saara, localizado na África, se o da devastação afetiva, criado por um coração partido. O romance do espanhol Luis Leante, de 46 anos, revela um fato pouco notado - à diferença das areias movidas pelo vento, que apaga as pegadas dos andarilhos, são eternos os rastros deixados por um passado violento. Certas recordações fazem mal. Mas a literatura pode transfigurá-las."A literatura é uma maneira de dar ordem ao caos e de mudar o que nos desagrada", diz Leante. "Com ela, podemos viver outros mundos, exercício que possibilita escapar à loucura que cerca nossa vida cotidiana frenética e arbitrária." O ficcionista acredita que a ficção está a serviço da tolerância e da renovação. "As coisas podem ser modificadas quando as vemos sob o ponto de vista do outro." Essas ideias amparam o enredo de Olha Como Eu Te Amo (Alfaguara, 264 págs., R$ 49,90), prêmio Alfaguara de melhor romance de 2007 e primeiro livro de Leante a chegar ao Brasil, com tradução de Eliana Aguiar. Portadora de uma denúncia política, que não é panfletária, enfatiza Leante, sua obra mostra a situação atual do povo saaráui e o conflito iniciado em 1975, no Saara Ocidental, ex-colônia espanhola na África. Hoje Marrocos e o movimento independentista Frente Polisário competem pelo controle desse território no norte africano. "Quis que o leitor se inteirasse de uma das disputas mais esquecidas em todo o mundo." Parte do romance se ambienta durante a guerra civil iniciada depois da independência nos anos 1970. "E a maior parte dos fatos e dos cenários do meu romance é real." "A Espanha abandonou o Saara Ocidental", diz. "Temos uma dívida com o povo saaráui, e a literatura começa a saldar aquilo que os políticos e a imprensa, há mais de 30 anos, tentam jogar no esquecimento." Leante lembra que, enquanto a Guerra Civil produziu vasta reflexão escrita, em torno da ex-colônia se criou "uma cortina contra a memória de um povo que formou parte de nossa geografia e história".Para tornar a situação mais dramática, Leante conta a história do amor fracassado entre uma médica e um mecânico. Montse Cambra conhece Santiago San Román, quando os dois estão saindo da adolescência. Para conquistá-la, Santiago pega, às escondidas, carros luxuosos da oficina onde trabalha e se diz filho de banqueiro. O relacionamento entre os dois jovens é proibido pelos pais de Montse, ao descobrirem a condição social inferior de Santiago. Em seguida, ele vai lutar com as forças espanholas no Saara Ocidental.Leante diz que, há tempos, desejava abordar o amor entre personagens de classes sociais distintas. "Sempre me despertou interesse o fato de pessoas tão diferentes como o casal do meu romance se desejarem com tanta força e desafiarem regras sociais tão impiedosas como as vigentes na Espanha dos anos 1970, herdeira de uma ditadura que durou cerca de quatro décadas", diz. "A atração entre dois indivíduos pode surgir nas situações menos prováveis e quase sempre resulta em paixões que deixam vestígios eternos." O escritor resolveu ambientar a relação de Montse e Santiago no deserto do Saara após visitar, em 2001, um acampamento de refugiados saaráuis na Argélia.A trama de Olha Como Eu Te Amo continua quando Montse - recém-divorciada, aos 44 anos - descobre uma fotografia de Santiago nos objetos pessoais de uma mulher africana que deu entrada, em estado grave, no hospital onde trabalhava. Entediada, ela abandona sua vida em Barcelona para procurar na África o seu primeiro amor, sem a certeza de que ele esteja vivo. No romance de Luis Leante, a ficção adota os desertos que uma realidade injusta é capaz de produzir, mas não de eliminar.

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