Um cubano e seu violão

O compositor Leo Brouwer, que revolucionou o instrumento, está em São Paulo para um grande festival em sua homenagem

Entrevista com

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

05 de dezembro de 2008 | 00h00

Havana, julho de 1959, as forças revolucionárias derrubam o governo de Fulgêncio Batista, levando Fidel Castro ao poder em Cuba. Paris, 1966, hotel L?Eglise, o escritor cubano Alejo Carpentier se debruça ao piano para acompanhar uma partitura de Vivaldi, base para os manuscritos, espalhados pela sala, de Concerto Barroco, livro que seria a síntese dos dilemas do artista latino-americano perante a tradição européia. Buenos Aires, anos 70, Júlio Cortázar redefine os caminhos da narrativa literária, influenciando gerações de escritores do continente. São apenas três de muitos momentos que definiram e ainda pairam sobre a identidade da América Latina. Há entre eles, porém, outro elemento comum - a presença de um compositor cubano, Leo Brouwer. "Aqueles anos foram um momento extraordinário", diz ele. Brouwer chegou na noite de segunda-feira ao Brasil. A partir de amanhã e até o dia 12, acompanha um festival dedicado à sua obra, patrocinado pelo Instituto Cervantes e a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Serão diversos concertos, palestras, masterclasses (a programação completa você encontra no site www.festivalleobrouwer.com.br) . Sua vinda tem despertado excitação no meio musical. Para alguns, Brouwer deve ser considerado o maior violonista de sua geração. Para outros, seria mais correto falar em "personalidade do violão", já que, além do trabalho como intérprete, foi também como compositor que ele alargou os limites expressivos e técnicos do instrumento. Nessa linha, vem a comparação - se, na primeira metade do século 20, Villa-Lobos transformou o violão, o mesmo crédito deve ser dado a ele dos anos 50 em diante. Tudo isso é verdade. Mas não dá conta completa do recado. É preciso entrar em sua obra para compreender os motivos que fazem de seu violão algo tão especial. Conversando com o Estado, Brouwer conta que o instrumento foi o veículo ideal, talvez o único possível, para a mistura da tradição, das raízes da cultura latino-americana, com o que de mais experimental existia nas criações da vanguarda européia. Ao mesmo tempo em que pesquisava as origens da influência africana no continente ou criava um grupo para divulgar em Havana a música popular brasileira, Brouwer recebia em Cuba compositores como Hans Werner Henze e Luigi Nonno, que, na Alemanha e na Itália, viravam do avesso a idéia de música. Some a isso o contato com Cortázar, Piazzolla, Camargo Guarnieri, García Márquez, Carpentier, e seu posicionamento político alinhado à revolução cubana, e o fato é que, aos 69 anos, Brouwer é autor de uma obra cuja compreensão é uma janela aberta na direção do que é a América Latina.

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