Um corpo feito de muita informação

Mauricio de Oliveira, que povoou seu trabalho de referências de outros coreógrafos, tenta agora um percurso individual

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

23 Março 2009 | 00h00

Uma movimentação que vai ?pessoalizando? os ingredientes fortes que compõem a sua história. Isso não é pouca coisa. Maurício de Oliveira, que voltou da Europa em 2004 e, em janeiro do ano seguinte, fundou em São Paulo a sua companhia, a Siameses, está desenvolvendo um jeito próprio de dançar. Seu cardápio de contaminações reúne uma população expressiva de nomes famosos. Começa com os coreógrafos com os quais trabalhou no Balé da Cidade de São Paulo (BCSP), onde, em 1989, tornou-se bailarino profissional. Cinco anos depois, quando da passagem de Johann Kresnik pela companhia paulistana oficial, foi um dos que integrou a leva de bailarinos que ac eitou o convite para dançar com ele na Alemanha. Depois, seguiu para a Holanda, onde também conviveu com diferentes coreógrafos, dentre os quais, a dupla Leine e Roebana. Em 1999, de volta à Alemanha, estava na Pretty Ugly Dance Company, dirigida por Amanda Miller, de onde saiu para entrar no Frankfurt Ballet, àquela altura dirigido por William Forsythe, e lá ficou por quatro anos, até 2004. No ano passado, foi convidado a colaborar com o grupo atual de Forsythe na produção de The Mythic Radio Theater, e também participará da obra de 2009 da The Forsythe Company. Nos seus 11 anos de Europa, seu trajeto profissional se deu em companhias onde o intérprete colabora criativamente com os trabalhos dos coreógrafos. Assim, muito da sua movimentação está em obras de Forsythe ou de Leine e Roebana, por exemplo. Evidentemente, ele também foi profundamente afetado pelas concepções coreográficas dos criadores com os quais trabalhou. O corpo não recusa as informações com as quais mantém contato contínuo. Elas vão encarnando, vão tornando-se corpo. É com esse corpo povoado por informações (que estamos acostumados a associar somente aos coreógrafos que as assinam publicamente) que Maurício de Oliveira faz agora o seu percurso individual na dança. Não é simples. Além de enfrentar a circunstância de resgatar o que de seu estava na assinatura de outro, é preciso também inventar um outro modo de mostrar esse material. E é exatamente isso o que a nova versão de De.Gelo mostra. Tendo estreado no Teatro Gazeta, em São Paulo, na programação de 2007 do Rumos Itaú Dança, a obra foi retrabalhada e agora revela a construção de uma preciosa coerência entre seus três intérpretes. O palco, despido por Maria Duda dos excessos cenográficos da primeira montagem, como que se torna um zoom a focar a coreografia. O figurino de Adriana Hitomi, felizmente, segue na mesma direção.Natália Fernandes e Marina Salgado (que participou da primeira versão) dominam com enorme competência a difícil combinação de gestos e suas frações na qual Maurício de Oliveira vem se especializando. Além disso, a dança de cada uma se relaciona com a dança da outra, produzindo assim uma tal química que preenche bem a cena. Quanto a Mauricio de Oliveira, vale saudar, na sua movimentação, a presença de uma outra flexibilização do tronco. Com ela, consegue suavizar o aspecto impositivo das linhas que ficaram assinadas por Forsythe, e que o próprio Forsythe havia trazido de Rudolf von Laban (1879-1958), um dos principais cientistas da dança do século 20. Essa flexibilização do tronco, que também está em Marina e Natalia, parece rearrumar os braços e as pernas em uma lógica própria, fazendo do corpo algo para além de uma discussão sobre eixos e deslocamentos. Como intérprete, Maurício de Oliveira já havia iniciado essa flexibilização quando dançava com Leine e Roebana, na Holanda, em meados dos anos 1990. O que era então embrionário, foi abandonado no trabalho com Forsythe, e agora retorna de forma poderosa, reordenando tudo. O corpo espirala para dentro dele mesmo, mas não em uma espiral contínua. A direção é espiralada, mas os gestos que nela estão não se resolvem uns nos outros. Um não escorre a partir do outro, mas sim em uma ordem conduzida por uma intercalação de formas distintas. Vai-se de um gesto ao outro, e o trajeto espiralado fica subordinado a eles. Eles conduzem a espiral. É entusiasmante perceber que não são variações contínuas que formam o espaço, e que ele vai sendo tecido também pela fina sintonia entre os três intérpretes. Com este novo De.Gelo, que foi apresentado este mês no Teatro da Dança, Maurício de Oliveira assina o início de um outro percurso, pautado por uma maturidade que deve produzir muitas outras importantes e merecidas conquistas.

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