Um clássico enfrenta a modernidade

Netto e o Domador de Cavalos, de Tabajara Ruas, pode provocar polêmica em Gramado por sua resistência à globalização

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2008 | 00h00

Três longas brasileiros e dois latinos já foram exibidos nas mostras competitivas do 36º Festival de Gramado. Os dois mais interessantes são filmes de perfil bastante diferenciado, o de Murilo Salles, Nome Próprio, exibido na primeira noite, e o de Tabajara Ruas, Netto e o Domador de Cavalos, na terceira. Ambos diferem radicalmente até na forma de utilizar (ou exibir) a tensão criativa entre as novas tecnologias, leia-se o digital, e as tradicionais, a película, que está no conceito da seleção de títulos deste evento. Murilo Salles discute o desamparo feminino por meio da viagem ao interior de uma personagem que remete ao universo dos blogs e da internet. Nada mais ?atual?. Tabajara Ruas retoma o personagem do General Netto de Netto Perde Sua Alma e, na verdade, recua ainda mais no passado, para mostrá-lo antes de 1835, e da Guerra dos Farrapos, quando os gaúchos tentaram criar uma República, separando-se do escravocrata império dos Braganças.Netto e o Domador de Cavalos, com os defeitos que possa ter, possui belas qualidades, mas é o tipo do filme destinado a provocar polêmica, ainda mais no contexto de um festival que celebra nomes que restaram da briga pela afirmação das novas cinematografias, nos anos 60, tipo o brasileiro Júlio Bressane e o outro Julio, o cubano García Espinoza. No universo de referências cruzadas que virou o cinema da (pós)modernidade, as de Tabajara são autores que talvez sejam ?clássicos? demais para provocar ressonâncias no imaginário do público, e da própria crítica, atuais. Uma janela se abre para que o General Netto seja visto ao fundo, chegando com um par de cavalos. A cena remete imediatamente à abertura de Rastros de Ódio, de John Ford, mas quem se interessa por isso? No interior da casa do barão, as meninas correm abrindo as portas e pode ser que alguém se lembre do passeio de Alain Delon e Claudia Cardinale pela ala semi-abandonada do palácio do príncipe Salinas em O Leopardo, de Luchino Visconti.Referências são coisas muito pessoais, de parte de diretores ou mesmo de espectadores, de quem as emula (ou absorve). Netto e o Domador de Cavalos cruza a história do revolucionário interpretado por Werner Schünemann com a lenda do Negrinho do Pastoreio, uma das mais populares do folclore gaúcho. Muita gente recebeu o filme em Gramado como um épico, mas não é. Sua história, mais drama do que aventura, atravessa o épico ou o precede, de forma mais intimista, e só no final Netto e o Domador de Cavalos (Tarcísio Filho) estão prontos para a batalha e aí é o começo de Netto Perde Sua Alma.O filme trata de injustiça, de desigualdade social e racial, aponta para uma utopia revolucionária. O barão e seu filho sacrificam o Negrinho como exemplo de sua autoridade, mas os negros rio-grandenses já estão se emancipando, primeiro como quilombolas, integrantes de quilombos, e depois como lanceiros do Exército do General Netto. E todo o relato é permeado por cantos, danças, pelo ator de ?carnear? o gado ou aplicar a (in)justiça da classe dominante, numa descrição ?cotidiana? como aquela que permeia os westerns de Ford, que também tratam da criação e do estabelecimento de comunidades. Pode ser que tudo isso seja clássico demais, mas também é uma resistência à globalização. Levado para o tronco, o barão grita que dentro de 100 anos a ordem terá voltado a ser a dele, mas o domador de cavalos, o índio Torres, responde que dentro de 100 anos talvez. Agora, no tempo do filme, é diferente.MARIONETESNão é, evidentemente, um filme para todos os gostos, como não foi o latino Mindelo Trás d?Horizonte, de Alexis Tsatas, de Cabo Verde. O filme propõe, sem entrevistas nem diálogos, uma viagem pela riqueza cultural e humana da pequena ilha do Atlântico colonizada pelos portugueses. Há algo do filme cubano Suíte Havana, no conceito, mas Mindelo propõe outra coisa. Não é um mero roteiro turístico para passar no canal National Geographic, como alguns críticos, apressadamente, pensaram. Na utilização da música, do trabalho e também de representações de teatros de marionetes e textos recitados por atores, o filme se indaga sobre o que é, afinal, a identidade do cabo-verdiano. O diretor, de origem grega, disse que Cabo Verde é um país pobre, no qual o cinema é um luxo. Produzem-se pouquíssimos filmes por lá. Aliás, quase não se produzem filmes. A seleção para a mostra competitiva de Gramado, ele acrescentou, é um estímulo para toda a equipe. Poderão surgir programas melhores na competição latina, mas Mindelo já foi um passo à frente do argentino Por Sus Próprios Ojos, o primeiro concorrente, exibido na segunda-feira à noite.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.