Um ciclo para lembrar o rei do sexo

Sala Cinemateca homenageia Ody Fraga, diretor que talvez mereça outro título, o de ideólogo da chamada Boca do Lixo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2008 | 00h00

Seus filmes tinham títulos apimentados como Senta no Meu Que Eu Entro na Tua, mas, para além de todo o folclore, Ody Fraga foi mais do que o diretor que ostentava a reputação de ?rei do sexo? - e isto num meio como a Boca do Lixo, onde não faltavam pretendentes ao posto, já que o assunto, ali, não era exatamente de forma a causar espanto ou desconforto. O sexo fazia parte do feijão com arroz produzido nos cinemas daquela região paulistana. Nascido em Santa Catarina, em 1927, Ody Fraga morreu aos 60 anos, em São Paulo. Mais do que rei da pornochanchada - e, depois, do filme de sexo explícito -, a verdadeira etiqueta que poderia ser colada a ele seria a de ?ideólogo da Boca?. Um ciclo na Sala Cinemateca resgata esta figura cuja importância talvez não seja tanto artística, mas comercial. Não se deve descartar, no entanto, que seus filmes venham a proporcionar descobertas. E, de qualquer maneira, eles ocupam um capítulo destacado na história do cinema paulista.O mais interessante é que o jovem Ody Fraga e Silva chegou a ingressar num seminário, para agradar aos pais, que queriam que ele fosse pastor. Apaixonado por teatro, ele largou os estudos religiosos e foi para o Rio, onde trabalhou no Serviço Nacional do Teatro e ganhou reputação como dramaturgo. Fazia crítica de cinema (como ghost writer) e colaborava no suplemento literário do jornal A Manhã - de certo um saudosismo da época em que foi, em Florianópolis, um dos fundadores da revista literária Sul, considerada a mais importante de Santa Catarina.Como um homem com esta formação foi parar na pornochanchada e no sexo explícito? Ody Fraga começou no cinema como roteirista, escrevendo Conceição - thriller policial de Hélvio Souto, com Norma Bengell, em 1960. Dois anos mais tarde, ele próprio dirigiu Vidas Nuas, que só foi finalizado em 1967, pelo produtor A.P. Galante - e é considerado por muita gente o marco zero da pornochanchada. Ody Fraga escreveu novelas para televisão, mas em 1973 voltou definitivamente para o cinema, estabelecendo-se na Boca. Com sólida formação cultural, rapidamente se transformou numa espécie de diretor de diretores - fazendo observações, trocando idéias ou dando sugestões (e até assinando) os roteiros.Até sua morte, em 1987, participou de cerca de 60 filmes, em múltiplas funções. Com Macho e Fêmea, em 1974, introduziu uma inovação - um distribuidor associou-se à produção, garantindo o circuito exibidor. Seguiram-se obras como Adultério, as Regras do Jogo; O Sexo Mora ao Lado; Reformatório das Depravadas; Palácio de Vênus; A Fúria do Mar; A Filha de Calígula - pois Ody Fraga, além de tudo, estava sempre em sintonia com o que se fazia no exterior, não perdendo a chance de dar continuidade ao polêmico Calígula, de Tinto Brass, produção da Penthouse com Helen Mirren integrando a dissoluta corte do imperador romano! Nestes filmes pode-se ter uma súmula das grandes estrelas da Boca - Helena Ramos, Vera Fischer, Matilde Mastrangi, Nicole Puzzi, Neide Ribeiro, Daniele Ferreti, e a própria Geórgia Gomide. A exemplo da chanchada carioca nos anos 50 - com sua estética da paródia que os críticos estudam hoje como manifestações de resistência cultural à dominação de Hollywood -, a pornochanchada, em São Paulo, vem sendo mapeada e analisada com uma seriedade desconhecida antes, muito provavelmente devido ao preconceito. Havia lá, também, uma resistência do cinema à censura do regime militar. Política não podia, sexo, sim. Ele era escancarado, senão escrachado. Neste processo, uma figura como Ody Fraga é muito importante.

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