Um carregador de malas virou o ''salvador'' das duas obras

O carregador de malas nova-iorquino Darren Hoggard, de 49 anos e que trabalha desde 1980 no Aeroporto de NY, gostava dos desenhos naqueles murais. Durante décadas, ele se acostumou a eles, tornou-se talvez um dos seus maiores admiradores, mas agora estava preocupado: ouvira dizer que seriam destruídos junto com todo o terminal onde trabalhava. Foi quando viu uma turista contemplando-os longamente, resolveu compartilhar com ela sua angústia. "Eu olhava todo dia para o painel e dizia ?Uau que bela obra!?, quando soube que iam destruir quase chorei, disse Hoggard.A turista, que vinha do Brasil, a mesma terra do autor dos murais, Carybé, ouviu incrédula a informação. Acontece que ela era baiana, como canta o João Gilberto. Beatrice Esteve não teve dúvidas: ao chegar ao Brasil, saiu em busca de ajuda. Lembrou-se que conhecia Gilberto Sá, um dos homens fortes da construtora Odebrecht que foi grande amigo de Carybé e o procurou em Salvador. Não se viam havia 20 anos - Sá tinha sido o comprador da casa que foi de sua família na infância, em Salvador. Gilberto Sá ouviu atentamente o relato e ficou escandalizado. Procurou outro grande "chapa" de Carybé para repartir a angústia: Renato Martins, que ajudou a organizar livro sobre toda a obra existente do artista em 1989 e também é antigo diretor da empresa. Resolveram intervir, mas tinham pouco tempo: o terminal no aeroporto JFK, em Nova York, seria demolido em um mês.Colado com cimento na parede, o painel era de difícil remoção. Também não havia ainda um lugar para onde ser levado. "A primeira coisa era tirar do prédio sem danificar os painéis, mas também sem atrasar as demolições. Talvez a gente tivesse de levar para um depósito em Nova York e deixar lá por um tempo, até achar um lugar", diz Gilberto Neves, diretor de operações da empreiteira nos Estados Unidos. Ele diz que não tinha noção da importância dos murais quando iniciou o processo de remoção, mas que logo se deu conta de que se tratava de algo excepcional.Em Miami, os painéis terão um público invejável. Cerca de 8 milhões de pessoas transitam pelo aeroporto, a maior parte delas ligada ao universo retratado na obra. Para ilustrar a ideia que se tem da região, um executivo contou uma piada que ouviu durante um discurso em Fort Lauderdale, há algum tempo: "A melhor coisa sobre Miami é o que ela fica muito próxima dos Estados Unidos."

Jotabê Medeiros, MIAMI, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

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