Um Camelo contemplativo e monótono na estréia-solo

Sou - que também pode ser lido como Nós, de cabeça para baixo - é o título do introspectivo CD de estréia-solo de Marcelo Camelo, ex-Los Hermanos. Posando de diva reclusa, ele sempre desdenhou a função de "artista explicar sua arte" (quem salvava as entrevistas dos Hermanos era Rodrigo Amarante). Então, cada um entenda por si o que sai de sua lavra lacônica."Posso estar só mas sou de todo mundo", diz ele em Doce Solidão (oh!). Diz seu irmão no press release que esse jeito de "cara estranho", "profundamente só" - dissimula uma figura alegre, que adora cantar Parabéns a Você "com o isqueiro fazendo as vezes de vela e bolo". Que tal? No CD, o que transparece é o "cara estranho" que o histérico fã-clube já conhece de sua ex-banda, aquele que sussurra, não canta, que faz a linha cool, sem nuances. Esse é o principal motivo pelo qual em quase uma hora de Sou espera-se (em vão, claro) o momento em que a potente e ensolarada voz de Amarante poderia entrar. Mallu Magalhães cumpre bem essa função de quebrar a monotonia em Janta, canção folk em que Camelo mostra seu lado Feist. Outro bom momento é o solo de piano de Clara Sverner em Saudade (que tem outra versão com vocal de Camelo). Liberdade tem a sanfona de Dominguinhos e as primeiras faixas contam com o criativo instrumental da banda Hurtmold.Boas surpresas são a marchinha Copacabana e o samba-reggae Vida Doce, em que Camelo acorda da tediosa contemplação. Além de melodista habilidoso, ele também constrói vez ou outra boas e econômicas letras. O CD tem bons achados nos arranjos, mas ainda falta chão para ele se segurar sozinho.

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