Um caçador de palavras desgastadas

Humberto Werneck lança um dicionário sobre frases feitas, O Pai dos Burros

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

25 de agosto de 2009 | 00h00

Em seu livro Sobre Natureza e Linguagem, o professor norte-americano de linguística Noam Chomsky lembra que o cérebro das abelhas é do tamanho de uma semente de grama, com menos de 1 milhão de neurônios. O humano tem 100 bilhões ou mais. As abelhas, no entanto, comunicam-se para produzir mel. Já alguns humanos só se comunicam para produzir frases feitas e lugares-comuns, apesar de seus 1.024 gigabytes de memória. A prova disso é o livro O Pai dos Burros, que o escritor e jornalista Humberto Werneck lança hoje. É um livrinho que cabe na palma da mão, mas tem 4.500 expressões espalhadas por 2 mil verbetes, um dicionário de clichês capaz de envergonhar qualquer autor.Werneck alerta que não escreveu o livro para punir os proscritos da linguagem. Jura que não tem vocação para policial dos excessos semânticos. Ao colecionar frases feitas e lugares-comuns durante anos, desde 1972, ele só teve a intenção de incentivar a "reciclagem criativa de expressões". No começo, conta, "não sabia o que fazer com semelhante cacacaria". Ele anotava expressões banais, fases repetidas à exaustão e palavras com prazo de validade vencido. Mais de uma vez, diz, teve vontade de atirá-las ao lixo numa daquelas "heroicas" faxinas de escritório. No entanto, refletindo melhor, viu que elas poderiam divertir a moçada. Convertido em "gari da semântica", Werneck passou a colecionar expressões como "escola da vida", "origem humilde" e "escória humana" que não fariam vergonha na boca dos personagens dos melodramas de Douglas Sirk.É certo que, no ato de registrar tais palavras, autores preguiçosos costumam se servir da escrita automática consagrada pelos surrealistas. O livro de Werneck quer justamente "recomendar desconfiança" diante de tanta facilidade. "Nada de bom pode vir desse automatismo", diz Werneck, que no ano passado recebeu - merecidamente - o prêmio de melhor biografia da Associação Paulista dos Críticos por seu livro O Santo Sujo (Cosac Naify), sobre um intelectual que ajudou a moldar o modernismo brasileiro, Jayme Ovalle (1894-1955). Ovalle foi amigo de poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, autores que não tinham medo de clichês, embora mantivessem cautelosa distância de frases feitas. O mineiro Werneck, que também organizou o volume com as letras das canções de um de nossos maiores músicos, Chico Buarque - Tantas Palavras (Companhia das letras), prepara agora a biografia de Bandeira, que deverá ser lançada em 2011 pela Cosac Naify.Um obcecado pela funcionalidade da linguagem, Werneck revela que sua padroeira é Xerezade, a contadora de histórias de Mil e Uma Noites, cuja capacidade de invenção lhe garantiu a sobrevivência. É tudo o que a nova geração da internet não consegue. "Há uma certa uniformização da linguagem que me preocupa", observa. "Não diria que, a exemplo de Flaubert, eu esteja em busca do ?mot juste?, mas reconheço que existem algumas palavras mais ?justas?, mais exatas, que as outras."

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