Um bonito trem chamado memória

Tendo ferrovia como cenário, Inveja dos Anjos agradou ao público atento e caloroso que o grupo Armazém atraiu ao evento

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2009 | 00h00

Plenamente cumprida a expectativa positiva que cercava a apresentação, na 18ª edição do Festival de Teatro de Curitiba, de Inveja dos Anjos, do grupo Armazém. Havia motivos para o espectador ser atraído por esse espetáculo, entre os mais de 300 da programação, que teve início na quarta e só termina no domingo. Sim, são dezenas no palco a cada dia, em sessões cujos horários variam de 10 horas da manhã até meia-noite. Como selecionar? Essa é sempre a questão nesse evento que se orgulha de seus números vistosos, mas não traz qualidade associada à quantidade. Com exceção das 26 montagens da mostra principal, escolhidas por uma curadoria, o restante sempre deixa muito a desejar, desde a criação do Fringe, a programação paralela, em 1998. Leia blog especial sobre o festivalO público busca parâmetros para apoiar sua escolha, e não só num festival. Por exemplo, sem dúvida a presença de Thiago Lacerda levou muita gente a ver Calígula, e os flashes de pequenas câmeras digitais e dezenas de celulares pipocando no teatro, relatado por quem esteve lá, são sinal evidente disso. Ocupados em fotografar, e comentar, quantos realmente conseguiram dialogar com essa criação? Tomara que tenham sido todos...O MinC acaba de propor mudanças na Lei Rouanet baseadas no argumento de que a maioria dos brasileiros nunca pisou num museu ou assistiu a uma peça de teatro. A frequência à arte dá parâmetros de seleção; sejam eles quais forem, importante é poder formá-los a partir de um amplo leque de informações - isso é formação de público. Na mesma noite em que flashes pipocaram em Thiago Lacerda, uma platéia incrivelmente silenciosa e atenta acompanhou a apresentação de Inveja dos Anjos. Ao fim, levantou em peso, num impulso, para um aplauso caloroso. Voltando à expectativa positiva, antes de mais nada, o grupo Armazém foi criado há 20 anos no Paraná, na cidade de Londrina, e tinha seu trabalho reconhecido quando se instalou no Rio, na Fundição Progresso. Só no festival de Curitiba já veio seis vezes, sempre com bons espetáculos, e a julgar pelas declarações colhidas pela reportagem do Estado (leia ao lado) o trabalho do grupo foi parâmetro de escolha. E mais. Inveja dos Anjos acaba de receber no Rio os prêmios Shell de atriz, para Patrícia Selonk, e de dramaturgia, assinada pelo diretor Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, trio fundador dessa companhia, que tem um elenco há muito integrado ao trabalho. Quem acompanha tem o desejo de rever em cena a atriz Simone Mazzer, por exemplo, mas é preciso frequentar o grupo para conhecê-la. Na belíssima cenografia de Inveja dos Anjos, um trilho de trem que se dobra e sobe ao infinito é o elemento mais forte. Desde o início, o desejo dos criadores era uma dramaturgia de flagrantes de vida, como que captadas por um passageiro num trem em movimento. Construídas a partir da memória dos atores, própria ou testemunhada, o público acompanha pequenas narrativas, densas na forma como envolvem sentimentos contraditórios, tornadas simples e humanas na criação do elenco, cujas interpretações atingem o requinte da filigrana. Tais qualidades vêm ainda aliadas a uma plasticidade deslumbrante. Até aí, seria ?apenas? um belo espetáculo, digno de aplausos e prêmios. Porém há mais que isso a ser apreciado.O que mobiliza a emoção é algo que paira sobre as histórias e as perpassa. Suavemente, percebe-se que a estação de trem não é só lugar geográfico, mas um ponto num tempo mítico, nesse trilho que começa e termina no infinito. Habilmente, a dramaturgia faz todos os elementos convergirem para a revelação de que esse espaço de suspensão não está isolado. Nunca será possível realizar o ritual individualista proposto no ponto de partida da peça - apagar o passado. Há um trilho que vincula todos nós à mesma memória ancestral, à história da humanidade. As narrativas comovem. Mas podiam ser outras. O que toca fundo é o sentido dessa estação, desse trilho: é a condição humana. Não somos anjos. A repórter viajou a convite da organização do festivalO QUE ELES VIRAMRESPOSTAS: Helga Zinher, de 44 anos, é fonoaudióloga e trabalha em Ponta Grossa (PR). Não está entre os que acompanham toda a programação, mas fez questão de comprar ingresso para A Inveja dos Anjos. "Conheço o grupo já há algum tempo. Agora estão no Rio, mas são daqui da cidade de Londrina", argumenta Helga sobre sua escolha que mais uma vez não decepcionou. "Gostei muito como eles resolvem as histórias, como chegam às respostas. É um espetáculo inteligente."TEXTO PRÓPRIO: Caetano Borio, de 26 anos, e Karine Nascimento, 25, também foram ao teatro atraídos pelo Armazém. "Já vimos vários espetáculos deles, o último foi Mãe Coragem. Eu tinha gostado do anterior, que começava com carros no palco e terminava numa história de terrorismo (A Caminho de Casa). Mas este de hoje é melhor ainda. Eles se saem bem com texto próprio", diz Borio. "Gostei do ritmo crescente. A gente vai ficando cada vez mais envolvido", acrescenta Karine.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.