Um balanço feito pelo viés das boas interpretações

Relembre aqui alguns momentos inesquecíveis de nossos atores e atrizes

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2009 | 00h00

Numa cena diversificada como a paulistana, muitos são os ângulos possíveis para uma retrospectiva. Faz-se a opção: o ano teatral paulistano de 2008 será revisto do ponto de vista de algumas belas atuações. Comecemos pelo Hamlet, com Wagner Moura. Sim, o espetáculo causou polêmica. Mas é indubitável a atração exercida pela interpretação intensa de Moura. Ele se apropriou de cada palavra do texto, que deixou de ser uma malha de ''palavras, palavras, palavras'' para ganhar sentido. Há um evidente movimento interno para que cada uma delas saia de sua boca, agora suas, não mais de um autor distante. É o que se espera de um ator, mas, se isso parece óbvio no desejo, nada tem de simples na execução. Moura se expressa de corpo inteiro e a plena voz.Não foi a única atuação a merecer os mais calorosos aplausos. Era de se esperar que Cleyde Yáconis unisse todos os seus trunfos para presentear o público com mais uma bela criação. Mas, em O Caminho para Meca. numa cena, em especial, ela superou qualquer expectativa e imprimiu no palco uma daquelas imagens indeléveis nas retinas dos privilegiados espectadores de seu tempo. No papel da escultora africana Helen Martins, há um momento em que dois personagens se envolvem numa discussão e ela é o assunto: a atriz apenas ouve, imóvel. Fácil seria manifestar reações. Ela faz o mais difícil: une imobilidade absoluta e total intensidade criando um dos silêncios mais expressivos da cena teatral de 2008.Bem mais jovem, muitas vezes injustamente associada apenas ao cômico,Denise Fraga também deixa sua marca. Atinge as raias do preciosismo seu trabalho no espetáculo A Alma Boa de Setsuan como intérprete da prostituta Chen Te, uma alma generosa quando pobre, mas que para não perder sua propriedade recém-adquirida se traveste de Chui Ta, um suposto primo sovina. Na curva dramática por ela cuidadosamente desenhada é possível detectar a hesitação inicial de Chen Te agindo sobre o comportamento de Chui Ta e também, pouco a pouco, o gosto pelo poder e pelo conforto transformando dois em apenas um. Impossível não relembrar também a atuação excepcional de Walter Breda na peça O Ensaio, dirigida por Eduardo Tolentino. Trata-se de uma montagem do Tapa e quem acompanha a trajetória desse grupo sabe que vai encontrar sempre boas interpretações, elenco homogêneo e de nível técnico muito elevado. Não é diferente nesse espetáculo, mas Breda tem na peça missão especialmente difícil: seu personagem é alcoólatra, ressentido, porém tem senso de humor e inteligência. Num dado momento, comete ato de consequências terríveis e o faz com consciente crueldade para vingar-se de um amigo. Não é fácil unir sentimentos tão extremos e ele o faz com rara felicidade nessa peça. Vale voltar ao trabalho de Aury Porto, ainda que sempre será injusto destacar alguém no elenco do Oficina. Não é nada fácil para intérpretes dar conta da linguagem e do tour de force exigidos pelos espetáculos dirigidos por Zé Celso. Porém, em Os Bandidos, Aury Porto tinha ainda mais desafios. Precisava ser um personagem que disputa poder com um irmão - e nesse embate estavam envolvidas frustrações e ambições de ordem pessoal e social - porém devia sê-lo ainda, ao mesmo tempo e o tempo todo, também o apresentador Silvio Santos, proprietário do terreno que cerca o Oficina. Muitas eram as camadas superpostas e Aury Porto deu conta de expressar tudo com serenidade e segurança.Falemos de Georgette Fadel e Isabel Teixeira em Rainhas(s). Será difícil esquecer a cena em que Georgette, andando em círculos, se transmuta de mulher contemporânea atarefada em soberana curvada sob o peso de compromissos terríveis. Ou ainda o primeiro momento em que Isabel Teixeira assume a personagem Mary Stuart, atormentada pelo remorso de ter assassinado seu primeiro marido. A diretora Cibele Forjaz traz para a cena um duelo de grandes atrizes de nível raro.Por último, pelo grau de protagonismo, é preciso registrar a presença de Thiago Lacerda no papel central de Calígula, dirigido por Gabriel Villela. O entusiasmo que provocou talvez se funde no despudor com que se lança no palco, sem qualquer tentativa de autopreservação. O resultado: todos os seus limites ficam expostos. E não são poucos. Mas ele se lançou por inteiro e essa vibração chega ao público. Não é suficiente para a dimensão trágica exigida por Calígula. Mas com seu mergulho no escuro esse ator com certeza sai melhor dessa experiência. Por enquanto, o teatro lhe dá mais do que ele a essa arte.

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