Um auto-retrato reflete a pequena Louise Bourgeois

Todo o trabalho criado pela artista em 70 anos de carreira espelha o trauma edipiano que a acompanha desde a infância

Tonica Chagas, O Estadao de S.Paulo

28 de agosto de 2008 | 00h00

Arte e vida são irmãs xifópagas para Louise Bourgeois que, aos 96 anos, ainda usa as mãos para expurgar memórias e sentimentos. Reconhecida internacionalmente só a partir dos anos 80 (o que a levou a ser chamada de "a mais velha dos jovens artistas"), sua carreira está sendo revista no Guggenheim Museum de Nova York, até o fim de setembro, numa seleção de quase 200 desenhos, pinturas, esculturas e instalações. Como um auto-retrato caleidoscópico e simbólico que transita do abstrato ao figurativo, a retrospectiva delineia os 70 anos desde que Louise passou a viver nos Estados Unidos. E como um ciclo de volta ao começo, suas criações mais recentes remetem ao início da vida dela em Paris, sua terra natal.As conseqüências de quase um século sobre o corpo daquela mulher pequenininha podem ser notadas em obras que ela produziu apenas alguns meses atrás. As mãos que antes cortavam madeira, agrediam mármore e moldavam gesso ou bronze na forma de aranhas, espirais e falos, agora se exprimem em papel e pano. Como fazia quando, ainda menina, Louise Joséphine Bourgeois começou a trabalhar na oficina de restauração de tapeçarias de seus pais.Organizada numa associação da Tate Modern, de Londres, com o Centre Pompidou, de Paris, e a Fundação Guggenheim, a retrospectiva é completada na montagem de Nova York pela exposição A Life in Pictures: Louise Bourgeois, com fotografias pessoais e diários que a artista mantém desde 1923. Nas milhares de páginas com poemas, esboços e pensamentos soltos estão fragmentos da história pessoal que Louise transfigurou em arte.Essa história é marcada por memórias de infância, como a do desespero de Josephine, sua mãe, procurando o marido, Louis, em campos militares durante a 1ª Guerra. Zelosa e tecelã, paciente e resistente, Josephine é a aranha, figura que mais identifica o trabalho de Louise. Quando tinha quase 12 anos, ela começou a redesenhar motivos de Gobelins e Aubussons para que os empregados os consertassem na oficina da família. Daí vem o desenho como elemento mais constante no seu processo criativo. A raiva, o medo, os sentimentos dúbios que transpiram em suas imagens vêm da descoberta que o pai tinha como amante a professora de inglês de seus três filhos, que viveu na casa deles por dez anos, e que Josephine sabia da traição.Louise foi estudar matemática na Sorbonne, em 1932, mas abandonou o curso para aprender o que queria mesmo na École des Beaux-Arts, na Académie de la Grande-Chaumière e na École du Louvre. Chegou a ser assistente de estúdio de Fernand Léger, pouco antes de se casar com o americano Robert Goldwater, que era historiador de arte e especialista em arte africana. Em 1938, o casal mudou-se para Nova York, onde nasceram seus três filhos e ela vive até hoje, num sobradão do Chelsea.Os primeiros trabalhos dela vistos na retrospectiva são desenhos e pinturas feitos entre 1945 e 1947 que compartilham o título de Femme Maison. Essas mulheres-casa, estruturas arquitetônicas com corpos femininos, lembram os objetos com partes humanas de Léger e a própria Louise de então, dividida entre seus papéis de mãe, esposa e artista. E trazem duas das mais importantes referências visuais dela, o corpo humano e o espaço doméstico.Naquela mesma época, Louise trabalhou como impressora na filial nova-iorquina do Atelier 17, do inglês Stanley William Hayter, onde conheceu Le Corbusier, Joan Miró e outros artistas refugiados da guerra na Europa. Ali ela também imprimia seus trabalhos, como a suíte de nove gravuras He Disapperead into Complete Silence, de 1947. Esta já inclui textos e conta um drama em frases curtas com ironia e humor surrealistas como as do desenho de uma guilhotina: "Certa vez um homem estava acenando para um amigo de dentro do elevador. Ele ria tanto que pôs a cabeça para fora e o teto a cortou."No fim dos anos 40, Louise abandonou a pintura e passou para a escultura como mídia principal. Trabalhava num estúdio improvisado no telhado do prédio onde morava e, com madeira achada nas ruas, criou uma série de totens, os Personages. Quase todos da altura dela, figuras como Needle Woman e Portrait of C.Y. remetem a lembranças de pessoas ligadas a Louise e são vistas como seu primeiro esforço artístico amadurecido.Até por volta de 1955, ano em que ganhou a cidadania americana, ela teve algumas exposições individuais e participou de várias coletivas de expressionistas abstratos. Ela se afastou do circuito por algum tempo e foi dar aulas em escolas públicas, no Brooklyn College e no Pratt Institute. Quando retomou o fazer arte, nos anos 60, Louise mergulhou na experimentação com materiais maleáveis como gesso, resina e látex. Depois de visitar pedreiras numa viagem à Itália, passou também a dar formas refinadas ao mármore, sobrepondo-as a bases de madeira rústica.Na década da liberação das mulheres, Louise criou esculturas de formas orgânicas e labirínticas com referências mistas da natureza e do corpo humano, falos e seios, abrigos e esconderijos - muitos deles com o título sintomático de Liar (covil ou toca) e outros chamados Cumul, para lembrar um tipo de nuvem. Essa ambigüidade de significados é mais explícita em esculturas penduradas em fios de aço, como as diferentes versões de Fillette (menininha, em francês), que representa um enorme pênis, e de Janus Fleuri, que parte da figura grega com duas caras em direções opostas e funde os órgãos genitais feminino e masculino.Sempre em sintonia com as novas gerações, nos anos 70 lá estava ela criando instalações e performances. E, como sempre, levada pelas memórias de infância. Numa de suas principais obras desse período, The Destruction of the Father, de 1974, ela dá início às instalações de grande porte que produziria a partir dos anos 80 e realiza uma fantasia medonha. A peça, vista como um tableaux na penumbra de lâmpadas vermelhas, é composta por protuberâncias arredondadas dispostas sobre o que parece uma maca. Para Louise, é a reminiscência dos jantares em família e, na sua imaginação, as crianças agarram o pai, o fazem em pedacinhos e o devoram.O trabalho de Louise se expandiu em escala depois de 1980, quando ela comprou e passou a usar como estúdio o predinho de uma antiga fábrica de roupas no bairro do Brooklyn. Na mesma época, ela publicou um texto ilustrado na revista Artforum detalhando, pela primeira vez, seu trauma edipiano. Em 1982, ela foi a primeira mulher a merecer uma retrospectiva no Museum of Modern Art (MoMA). Porém, aos 70 anos, Louise ainda estava só começando uma nova fase de produção.Numa série de esculturas de mármore feitas a partir de 1984 e identificadas como "estudos da natureza", ela dá forma a emoções opostas, fundindo humano e animal, criando figuras hermafroditas e contrastando contornos delicados com a rudeza da pedra quase em estado bruto. Se todo o corpo de trabalho de Louise pode ser visto como um auto-retrato, ela cria sua melhor metáfora em Spiral Woman, pequeno bronze de 1984 no qual retoma um tema do início dos anos 50. O corpo nu de uma mulher, envolto da cabeça à cintura por uma espiral, oscila na ponta de um fio que vem do teto. "Uma espiral tem duas direções. Pode girar para dentro, em contração, ou pode se abrir do centro para o infinito", lembra a artista. "Em meu trabalho, emocional e psicologicamente, eu oscilo entre duas direções."Ainda nos anos 80, Louise começou a criar suas celas, pequenos quartos cercados de portas ou grades onde passou a "trancar" seus fantasmas ambivalentes. Foi com obras dessa série que, em 1993, ela representou os EUA na Bienal de Veneza. Nesses confinamentos, ela junta suas esculturas, objetos que guarda desde menina e outros que acha ou compra. Assim, monta narrativas psicológicas intensas como a de Red Room (Parents), a interpretação que deu ao quarto de seus pais e diz ser a "cena de um crime". Ou a de Cell (Choisy), onde pendurou uma guilhotina sobre a reprodução em mármore rosa da casa em que sua família vivia e trabalhava.Louise ainda conserva a paixão por roupas instigada por seus pais que, segundo conta, competiam para lhe dar os vestidos mais bonitos de Chanel e Poiret. Nos anos 90, ela começou a usar suas roupas de criança como material artístico, às vezes trocando os cabides por ossos. Mais recentemente, além de roupas, ela vem incorporando em seus trabalhos lençóis, toalhas de mesa e retalhos de tapeçaria que guardou por décadas e décadas. Fio e agulha, que sempre foram uma simbologia especial para ela, agora são as principais ferramentas de sua expressão.Numa entrevista curta que deu a Nancy Spector, curadora-chefe do Guggenheim e responsável pela organização da retrospectiva nesta montagem em Nova York, Louise explicou sua motivação para continuar trabalhando: "Ainda sinto que tenho muito para dizer e muito para aprender sobre eu mesma." Atualmente, em parceria com o arquiteto suíço Peter Zumthor, ela trabalha num projeto para homenagear mulheres que foram queimadas como bruxas no século 17.

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