Um ácaro e uma pulga lutam pela diferença

Coleção Costurando Histórias dialoga com principais estilistas brasileiros

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

10 de abril de 2009 | 00h00

Nada parece ter menos ligação com os conceitos de beleza e elegância do que as aventuras de um par amoroso formado por um ácaro e uma pulga. Pois esse casal de parasitas, Glauber e Hilda, é protagonista de narrativas encantadoras, cheias de humor e sabedoria, sem qualquer didatismo raso, e para lá de chiques, porque ilustradas, mais do que isso, inspiradas, na criação de cinco estilistas famosos: Alexandre Herchcovitch, Amir Slama, Fábia Bercsek, Marcelo Sommer e Rita Wainer.Ops, eu disse um casal de parasitas? Eles não têm vergonha alguma de sua condição, pelo contrário, tiram proveito dela, é da sua natureza, mas preferem o respeitoso "seres dependentes de associação". E quem não é? Dá para chamar mesmo de associação o projeto editorial que lhes deu vida, a coleção Costurando Histórias, idealizada pelos editores João Rodolfo Queiroz e Reinaldo Botelho, uma série de livros infantis, já com cinco volumes, todos publicados pela Girafinha. O nascimento desse amoroso casal se deve à imaginação da autora de histórias para crianças Indigo e foram assim batizados em homenagem à escritora Hilda Hilst e ao cineasta Glauber Rocha. Conexão é a palavra chave nessa coleção. E bem-sucedida. Desde o primeiro esboço, Queiroz e Botelho, profissionais de longa experiência no mercado editorial, já imaginavam histórias relacionadas ao universo de estilistas, que teriam o papel não apenas de ilustradores, mas de inspiradores. Boas ideias nem sempre rendem bons livros. Pois no caso dos primeiros cinco volumes dessa coleção - os editores já planejam ampliar a série - o resultado superou expectativas. Autora premiada, Indigo foi acionada pela editora Girafinha, que acatou o projeto da dupla de editores. "Eu não tinha qualquer ligação com moda e meu primeiro desejo era fugir do elemento glamouroso. Quando surgiu a ideia do ácaro achei perfeita. Um ser insignificante que vive em tecidos", diz Indigo. Ela vive numa chácara em São Lourenço da Serra, espaço rural próximo o suficiente da metrópole paulistana para mantê-la conectada, literalmente por meio de um blog, e longe o bastante para proporcionar a paz necessária para criar. Estilo de vida que possivelmente contribuiu para a qualidade do diálogo que ela estabeleceu com o imaginário dos estilistas. Num mundo que super valoriza a beleza e a padronização essas narrativas são lições de respeito às diferenças. Indigo não tenta ?disfarçar? a condição de suas criaturas. Glauber e Hilda não são seres queridos, nem belos, nem produtivos. Pelo contrário. Vivem perseguidos. O que os mantêm vivos é o amor que têm um pelo outro, exemplar, no melhor sentido do termo, para qualquer relação afetiva. A exemplo de suas criaturas, ela conseguiu "tirar proveito" até mesmo dos aspectos negativos desse casal. Não que eles sejam maus. Mas têm de agir de acordo com sua natureza. Glauber, por exemplo, fica sinceramente triste por provocar rinite no homem que lhe dá casa, comida e transporte. Só não pode evitá-lo. Mas por essas e outras há sempre alguém tentando eliminá-los, o que os obriga a mudar ?de moradia? constantemente. Prática que serve de mote para a autora ?costurar? as aventuras. "Ao emendar uma história, Indigo acabou dando coerência ao título da coleção. Ficou fantástico", elogia Reinaldo Botelho. Pulga na LupaMARCELO SOMMERUm menino de suspensórios, mulheres de penteados antigos - a atmosfera de "era uma vez" perpassa todas as imagens criadas por Sommer para Pulga na Lupa. "Isso é incontornável, minha matéria-prima é a memória afetiva. Há sempre um tom retrô no que faço", diz Sommer. "Cada estilista escolheu sua técnica, eu usei o recurso da colagem. Tenho um baú onde guardo tudo, de tampinhas de garrafas a flâmulas." Na história que ele ilustra, o casal de parasitas mora nos pelos da mulher gorila. "Fui muito ao circo em criança. Adoro. Atualmente há o chamado novo circo. É bom, mas o tradicional, com animais, tem outra magia." MutaçõesFÁBIA BERCSEKA visão de mundo dessa estilista inspirou a trama de Mutações, na qual Hilda se transmuta em vespa, sob efeito de um produto químico, para desespero de seu companheiro Glauber. "Eu sou a mutação em pessoa! Aproveito os momentos para evoluir sempre, em constante mudança para coisas novas e pretendidas como melhores", diz Fábia. Nos seus desenhos, bem na atmosfera dessa trama, as cores são quase psicodélicas. No entanto, o desfecho traz uma imagem intrigante na forma como destoa das demais, da cor à técnica: um retrato de mulher em tons de cinza. "A figura humana tem muita força no meu trabalho. Eu deixei o final mais fantasioso e enigmático, tanto que a cabeleira proposta pela Indigo seria a de um surfista, mas para mim esse ?um? era ?uma?, entende?"Férias MerecidasAMIR SLAMA O criador da grife Rosa Chá inspirou Indigo a colocar Glauber e Hilda para viver uma aventura no mar. Salta aos olhos a forte sintonia entre texto e ilustração em Férias Merecidas. "Por ter formação em História e não em moda, sempre conceitualizo a coleção por meio de um texto e a partir dele inicio a criação de estamparia, modelos e pesquisa de tecidos", argumenta Slama. Assim, quando o casal salta da cabeleira de um surfista para boiar gostoso no mar salgado, as imagens dessa aventura surgem em cores ora vibrantes, ora suaves, mas sempre claras. Porém uma ressaca no mar vai transformar as férias do casal num pesadelo e o desenho ganha novos traços e em tons de preto e cinza. Uma opção bem pensada? "Foi e não foi, pois ao me envolver com o texto, tornou-se implícita a questão do início das férias como algo mais leve e gradualmente, com as dificuldades, as cores mais escuras foram expressando os problemas."As Barbas do ProfetaRITA WAINEREla tem a autodefinição mais bem humorada do volume. "Rita Wainer é estilista, desenha o dia inteiro, não penteia os cabelos e não sabe cozinhar. O resto é lenda." Bom astral que se reflete nas suas ilustrações de As Barbas do Profeta - fundo branco, cores leves e alegres, desenhos feitos a giz e lápis de cor. "Fiz tudo a mão, não usei computador, mandei os originais para a editora", conta. Curiosamente, é a única que não cria uma imagem para Glauber e Hilda, apenas dois pontinhos. "Gostei demais da proposta da Indigo, esse casal de parasitas tão amoroso, mas não sabia com desenhar um ácaro e uma pulga, nem sabia como eram. Aí preferi dar ênfase aos outros elementos da trama." E realmente o astral da estilista inspirou o ?hospedeiro? mais bacana de todos, um sujeito que não tem muitos bens materiais, mas tem ousadia, bom humor e faz um som maneiro.O Cão de Três PatasALEXANDRE HERCHCOVITCHA sobriedade dos traços é o que primeiro chama atenção nos desenhos de Herchcovitch. O predomínio do preto e branco em contraste com uso econômico de algumas cores fortes cria beleza e atrai o olhar para as ilustrações desse estilista em O Cão de Três Patas. "Não acho que o desenho precise ser muito colorido pelo fato de ser um livro para crianças", diz ao Estado. Na narrativa que lhe coube, Glauber e Hilda moram nos pelos do cão do título, bizarro, rejeitado e solitário. Quando a tristeza bate forte o cão chora e tal cena rende uma entre as mais bonitas imagens criadas por Herchcovitch. "Pensando na percepção das crianças exagerei nas lágrimas, que formam um lago", conta. Para os mais sensíveis vale antecipar que a vida do cão muda para melhor. Herchcovitch terminou feliz a experiência. "Foi muito divertido fazer esse trabalho."

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