U2 aponta para novos horizontes

Novo CD vaza na web uma semana antes do lançamento e revela a capacidade de renovação da banda

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

É curiosa a forma como filmes e CDs "vazam" para a web, geralmente liberados por gente de dentro do esquema da indústria. Os filmes concorrentes ao Oscar amanhã se espalharam há várias pelo mundo em imagens de alta definição, que só pode ter vindo direto de Hollywood. A "vítima" mais recente é o novo (e bom) álbum do U2, No Line on the Horizon (Universal), que já circula pelo mundo desde quarta-feira. Antes, quatro faixas - No Line on The Horizon, Sexy Boots, Moment of Surrender e For Your Love - já tinham vazado e parece que o culpado desta vez foi o próprio líder da banda. Diz a lenda que Bono estava ouvindo o disco em casa, com o volume de som tão alto que algum espertalhão aproveitou para gravar e disponibilizar para os fãs.O lançamento oficial do 12º álbum do U2 está marcado para a próxima sexta no Reino Unido e no dia 3 de março no resto do mundo. Alguns links na internet vão sendo bloqueados, mas os disfarces se propagam. No Mediafire, por exemplo, o álbum está armazenado no arquivo "meusdesenhosderegua". Enfim, essa história de os CDs de superbandas pop (como Coldplay, Oasis e outros) caírem na rede antes do lançamento já virou piada.Por conta dessa antecipação involuntária, a gravadora Universal decidiu organizar audições do álbum para jornalistas, inclusive em São Paulo, acrescentando à sessão faixas-bônus que só sairão em singles futuramente. Não é a melhor condição para se apreciar o CD, pelo caráter dispersivo e pela urgência que implica publicar a notícia; nem via MP3, uma vez que a ficha técnica e todo o material gráfico não estão ao alcance do ouvinte. Quem é fã dedicado sabe que vale a pena esperar. Além do CD convencional, o álbum terá outras quatro edições especiais: em versão digipack com pôster mais link para baixar filme, no mesmo formato com uma revista no lugar do pôster, em vinil e num box set, em edição limitada, com todas essas mídias reunidas.Já numa primeira e apressada audição, porém, fica evidente a capacidade de a banda se renovar e criar canções de impacto, como a faixa-título que abre o CD. Não é por acaso que a sonoridade desta e de outras das melhores faixas remete aos bons tempos da banda nos anos 80, reunindo elementos básicos que fizeram a glória do U2: rock enérgico, experimentalismo, a guitarra pungente de The Edge em canções etéreas, baladas tocantes, letras poéticas e atitude política.Somando isso tudo, Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. foram buscar a segurança do passado nos produtores Brian Eno e Daniel Lanois, além de Steve Lillywhite (responsável pela produção adicional desta vez), que cravaram a impressão digital em álbuns antológicos do U2. Eno esteve envolvido em The Unforgettable Fire (1984) e com Lanois e Lillywhite participou ativamente da primeira grande guinada da banda, o histórico álbum The Joshua Tree (1987). Lillywhite não fez por menos: entre outros álbuns da banda, formatou War (1983), Achtung Baby (1991), outro marco sonoro, desta vez rumo à eletrônica, e All That You Can?t Leave Behind (2000), uma saudável retomada do velho estilo, com canções redondas.Em entrevista ao jornal Boston Herald, em novembro, Lillywhite disse acreditar que o U2 estaria "reinventando o rock" mais uma vez. Há um pouco de exagero nessa afirmação, mas é evidente que a banda assume riscos para não dormir no banco de reserva. Os nomes envolvidos remetem a um passado de musicalidade grandiosa e gloriosa, mas a abertura para a experimentação faz com que a banda soe atual. Há, sim, faixas fracas como I?ll Go Crazy If I Don?t Go Crazy Tonight e Get on Your Boots, alinhadas em sequência no miolo do CD, que dão uma certa preguiça.Primeiro single a antecipar o lançamento do álbum, Get On... tem partes boas, varia de ritmo e andamento, mas no geral é maçante. Sua substituta como "faixa de trabalho", I?ll Go Crazy... faz ainda cair mais o conceito. Não são os melhores cartões de visitas para um álbum que tem grandes faixas na abertura e no fim, com arranjos e sonoridades surpreendentes como as de FEZ-Being Born e da bela Unknown Caller. E certamente, há mais de bom para explorar com calma no CD. Só o tempo necessário para assimilá-lo dirá se realmente o U2 acabou de reinventar o rock. Ou não.

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