Tudo sobre o provocador Almodóvar

Em entrevistas, cineasta revela sua forma peculiar de contar histórias

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

23 de julho de 2008 | 00h00

Quando estreou como crítico da revista Cahiers du Cinema, em 1987, Frédéric Strauss logo se interessou pela obra do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, cujo filme Que Fiz Para Merecer Isso? estreou no mesmo ano na França, o primeiro de sua obra a ser exibido naquele país. ''Ele já tinha uma reputação de provocador, mas ninguém havia percebido suas qualidades. Assim, para um ''crítico novato'' como eu, interessava compreender um ''cineasta novato'', além de me agradar a idéia da provocação'', disse Strauss ao Estado, comentando sobre o livro Conversas com Almodóvar (tradução de Sandra Monteiro, João de Freire e André Telles), reunião de uma série de entrevistas que passaram a unir os dois profissionais e que a Jorge Zahar lança na terça-feira.Strauss tornou-se, segundo o próprio Almodóvar, no interlocutor que melhor o entendeu, criando a intimidade necessária para discutir sobre sua carreira. Assim, no livro é possível descobrir como o cineasta trabalha com as cores, seleciona as músicas e se relaciona com os atores, confessando ser Chus Lampreave (de Maus Hábitos) sua atriz preferida, além dos problemas provocados por Gael García Bernal, em Má Educação, e sua dificuldade em se vestir de mulher.As entrevistas ajudaram a corrigir mitos sobre Almodóvar?A provocação parecia ser a visão do telespectador, não a de Almodóvar. Levei tempo para realmente aceitar isso: pensava que, quando Almodóvar primeiro me disse que não tinha nenhuma intenção de provocar, ele não estava sendo sincero. Mas ele é extremamente autêntico, como homem e diretor: ele se atreve a mostrar o que gosta, o que o move, emociona, fascina. Seja um histérico travesti drogado ou uma mulher em lágrimas, não importa - não há a intenção de provocar. Quer dizer, Almodóvar não se preocupa com os preconceitos do espectador. Ele acredita que sempre é possível superá-las e, então, ver as coisas como realmente são, independentemente de um sistema de valores, de uma moral restritiva. O mito de Almodóvar ser ''light e nada sério'' foi derrubado por seus últimos filmes, mas ainda persiste a fama de ser o mestre da aparência, por conta da beleza plástica de suas imagens. O importante é que ele é, acima de tudo, um lutador de causas diversas, conectadas com as necessidades humanas, com o sentido da vida, muito além das aparências. Em outras palavras, liberdade, tolerância, generosidade e um tipo de amor religioso, como ele explica na entrevista sobre Volver.Almodóvar recusa-se a reconhecer a influência da Espanha de Franco e constrói uma narrativa sem contextos sociais. Mas, você realmente acredita em uma isenção política?Claro que a importância da liberdade que sublinhei acima tem implicações políticas, originárias da experiência de vida sob a ditadura de Franco. Mas Almodóvar jamais quis ser conhecido como um cineasta político, como se ele se encaixasse nesse gênero. De qualquer forma, ele sempre foi político a seu modo, sem que ninguém lhe ditasse como deveria ser um filme politizado. Ele pôde representar personagens relacionados à sociedade espanhola, especialmente a partir da sua relação emocional com essa sociedade. Tudo filtrado por sentimentos pessoais.Almodóvar sempre manteve uma relação de amor e ódio com a indústria de cinema da Espanha. Ele ainda não é devidamente reconhecido em seu país?Parece que a situação vem evoluindo devagar. Volver representou algo muito forte na Espanha: o retorno de Carmen Maura, que é muito popular, e a abençoada relação cinematográfica com Penelope Cruz, a queridinha do país. Também a presença do folclore da região de La Mancha, que garantiu uma forte presença espanhola. Assim, em seu próprio país, Almodóvar pode agora ser considerado embaixador da Espanha, título que ele ostenta no exterior há muito tempo. Para os tradicionalistas, no entanto, ele permanece como inimigo, o que ainda o afeta muito.O que você acha da frase de Peter Travers, da Rolling Stone, de que ''Almodóvar não apenas faz filmes - ele representa seu próprio cinema''?É verdadeira em mais de uma forma. Primeiro porque Almodóvar é provavelmente o cineasta que mais conectado está com a história do cinema mundial. Basta lembrar da homenagem a Sophia Loren em Volver, cheia de vida, prazerosa. O mesmo pode ser dito sobre A Malvada quando se fala em Tudo Sobre Minha Mãe. Mas, acima de tudo, Almodóvar representa seu cinema porque todos os seus filmes são sobre Almodóvar. Seu trabalho pode ser visto como um esforço de expressar sua verdade, criar um mundo cinemático que possa representá-lo. Sua obra é como um auto-retrato através de personagens que carregam parte de sua trajetória, de seus gostos, de seu próprio universo. Ou seja, é um processo criativo muito intimista. E a linguagem é acessível a todos os espectadores. Um exemplo: quando Almodóvar convida Caetano Veloso, em Fale com Ela, tem relação com seus gostos e sua vida. Afinal, ele ama a música Cucurucucu Paloma na interpretação de Caetano, que é um amigo querido. E o resultado não é desfrutado apenas pelos amigos, mas, ao contrário, tornou-se uma das cenas mais tocantes do filme.Quais as contribuições de Almodóvar para o cinema?São muitas. Em termos estéticos, seus filmes abriram novas perspectivas e criaram uma espécie de ''arte visual remix'', muito representativa nos tempos atuais. Também a forma com que ele une cinema e escrita (em filmes como Má Educação e A Flor do Meu Segredo) é única, além de revisitar a cultura clássica como o teatro. Almodóvar coloca ainda a relação entre diretor e atores no centro do processo, a ponto de os não-profissionais ganharem uma rara evidência, transformando a arte de direção de atores em algo quase antiquado. Em resumo, eu diria que todo o trabalho de Almodóvar engrandeceu o cinema, comprovando sua capacidade e a força de sua linguagem. É possível notar seu empenho nessa arte, especialmente em um momento propício a não se ter muita esperança cinematográfica.Os Filmes, Segundo O DiretorMULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS''O filme tem um ritmo que não respeita completamente as convenções da comédia, talvez pela minha falta de disciplina e minha liberdade ante os gêneros - e também porque há coisas que eu queria dizer e que não são de fato cômicas.''MÁ EDUCAÇÃO''Gael García Bernal tinha uma relação superconflituosa com sua personagem, sobretudo nas cenas em que tinha de se travestir, e, ao mesmo tempo, uma relação tensa com os colegas. Bastava ele ver um sapato de salto alto para entrar num estado de bloqueio total, a maquiagem era impossível.''TUDO SOBRE MINHA MÃE''As mulheres do filme são assim: vivem sós, entre amigas, mas são orgulhosas, belas e vivem sua dor; aprenderam a guardar essa dor nelas mesmas como se fossem dentro de um santuário (...) É também um filme sobre a solidariedade entre mulheres, mas uma solidariedade que se manifesta simplesmente ao sabor das provações da vida.''O MATADOR''É o meu filme mais abstrato, apesar de falar de algo muito concreto: o prazer sexual e a morte. É o mais distanciado do naturalismo e da realidade objetiva (...) Queria que o espectador pudesse se identificar com a sensibilidade, com mentalidade dos assassinos, com a idéia da morte que esses heróis encarnam, e não com sua realidade.''VOLVER''Volver, para mim, era retornar à minha infância a fim de poder me despedir dela. Não foi o filme que me permitiu fazer luto por minha mãe, pois eu já tinha deixado para trás, mas foi o que me ajudou a considerar daí para frente minhas lembranças como lembranças, nada mais que isso. Posso dizer que, embora fazer filmes nunca tenha sido uma terapia para mim, Volver me ajudou na minha vida pessoal.''

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