Trupe traz de Paris sua arte mais terna

Dirigido por Ariane Mnouchkine, grupo aborda a bondade em Les Éphémères

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2007 | 00h00

Depois de muitas tentativas e algumas frustrantes ?quase? vindas, finalmente o Théâtre du Soleil chega ao Brasil graças ao esforço conjunto dos organizadores dos festivais de teatro de Buenos Aires e Porto Alegre e do Sesc São Paulo. Deslumbramentos tolos à parte, essa empreitada de grande envergadura - a primeira vez que a trupe de 43 anos de existência se apresenta na América Latina - merece mesmo ser celebrada. Desde o dia 4, o Soleil já está em Buenos Aires com seus 75 integrantes de múltiplas nacionalidades, sendo 28 deles atores adultos, 15 crianças, além da equipe técnica. Fundado pela diretora francesa Ariane Mnouchkine, o grupo que tem no seu elenco a talentosa atriz brasileira Juliana Carneiro da Cunha vai mostrar aos brasileiros mais do que seu mais recente espetáculo - Les Éphémères -, de 7h30 de duração. Entre os dias 26 a 30 em Porto Alegre e 12 a 23 de outubro em São Paulo, no Sesc Belenzinho, o espectador vai conhecer não apenas um espetáculo, mas um pensamento diferenciado sobre a arte teatral. Uma forma de atuar que envolve não só uma estética em constante mutação, mas um modelo sedimentado de divisão de trabalho e de criação coletiva (leia ao lado), que no Brasil só nos últimos anos começou a ganhar fôlego e, sobretudo, financiamento.Quem já esteve na Cartoucherie, o galpão de uma antiga fábrica de munições que agora é sede da trupe, sabe que esse teatro acolhe o público de uma forma muito particular. Pois o diretor do Sesc, Danilo Santos de Miranda, que viu Les Éphémères entre outras criações do Soleil, garante que o Sesc Belenzinho quer ?acolher? o Soleil e a platéia brasileira da forma mais semelhante possível à original. Aqui como lá, o espectador vai escolher o seu lugar ao chegar ao teatro. Depois de marcá-lo, fica livre até o início da apresentação para circular, tomar um café, ou apreciar a farta documentação editada - catálogos, pôsteres, livros - e gravada vem vídeos e DVDs como o precioso making of da montagem de Tartufo, que vale demais ser visto, material que estará a venda no local.Mas é sobretudo o palco que merece cuidados especiais. "O espaço de representação lembra a pista do Oficina e vai ser reproduzido no Belenzinho. O mesmo se dará com o espaço de acolhimento no qual o almoço será servido aos espectadores pelos atores, no intervalo, nos dias de apresentação integral", afirma Miranda. Les Éphémères é composto de 15 histórias cotidianas com títulos expressivos em sua simplicidade como: o passeio, a carta tão esperada, o quarto de mamãe, as maçãs-do-amor. Sem dúvida o Brasil verá um espetáculo representativo de um ponto de mutação na trajetória desse coletivo de artistas. Desde sua fundação o Théâtre de Soleil vem levando à cena temas sociais e políticos. E sempre por meio da linguagem épica, narrativa, inspirada no teatro oriental, tanto na montagem de clássicos como Ifigênia em Áulis ou a trilogia Orestéia, quanto nas criações de dramaturgia própria - o escândalo francês do sangue contaminado em La Ville Parjure ou a epopéia dos refugiados de guerra do mundo inteiro em Le Dernier Caravanserail, criação imediatamente anterior a Les Éphémères.Assim, é natural que tenha causado estranhamento e definido como não político esse espetáculo que toca em temas íntimos e tem linguagem realista, mesmo que não barateada em naturalice. "No nosso grupo teatral, a criação seguinte sempre nasce da anterior", argumentou Ariane Mnouchkine em entrevista no Sesc Belenzinho. "Nas últimas montagens, vínhamos falando de situações muito duras, cruéis, como a vida de refugiados, que revelavam a maldade humana. Sentimos então necessidade de abordar a bondade, de falar daqueles momentos, de tempos em tempos, em que nós somos humanos." Ariane enfatiza no entanto a diferença entre íntimo e particular. "São questões universais, vivências que tocam fundo no espectador." Quanto ao abandono da cultivada linguagem épica, ela retruca: "Não importa se o espetáculo é realista ou não, mas se é verdadeiro e poético."

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