Trunfo do diretor é falar sobre o que conhece

Ele assumiu o desafio de dizer o indizível sobre o amor

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

Repare na foto ao lado. O diretor Matheus Souza, sentado no chão, coloca-se entre seus atores, Érika Mader, sobrinha de Malu, e Gregório Duvivier, cada um colocado sobre setas que apontam para direções opostas. É o próprio tema de Apenas o Fim. O filme trata de um casal terminal. Logo na abertura, ela anuncia que quer terminar a relação. Conversam, ele tenta argumentar pelo recomeço, ela parece irredutível. Veja o trailer de Apenas o FimIngmar Bergman várias vezes se referiu ao amor como uma dor de dentes da alma, filmando cenas de casamentos para mostrar o que desune, mais do que une, os casais. Matheus Souza, estudante da PUC, do Rio, fez um filme que transpira referências. Como estudante de cinema, ele está impregnado de Bergman, de François Truffaut, de Woody Allen e Richard Linklater, todos esses diretores que falam sobre relacionamentos. Pode até nem ser uma influência, assumida pelo menos, mas Apenas o Fim tem mais a ver com Domingos Oliveira.Desde os anos 60, quando estourou com Todas as Mulheres do Mundo, Domingos tem sido comparado a François Truffaut e Woody Allen. Domingos às vezes se equivoca, mas é um diretor que optou por dar voz a personagens comuns, gente como a gente. Jovens ou maduros, eles vivem na tela as crispações do amor, essa oposição entre o gesto impulsivo e a palavra consciente a que se referia Truffaut. A Domingos não falta ambição, mas ele traçou para si, e seu cinema, uma linha muito clara - só faz filmes sobre o que sabe, o que conhece.Matheus Souza segue essa regra elementar de Domingos Oliveira. Apenas o Fim é sobre o universo que ele conhece. A filmagem nos próprios ambientes da PUC carioca, a escolha de atores amigos, tudo tem a ver com seu projeto de fazer ficção falando sobre a realidade que lhe é próxima. O próprio diretor diz que, hoje, ao rever Apenas o Fim, os defeitos que o filme possui lhe saltam aos olhos. Mas isso, ao mesmo tempo, reforça o frágil encanto desse filme. Os jovens poderão se identificar plenamente com os personagens de Érika e Duvivier. O público mais maduro será tentado a se lembrar do jovem que já foi. A história, o diálogo possuem ingenuidades, OK. Mas são também sinceros e honestos. Matheus Souza assumiu o desafio de dizer o indizível sobre o amor. É um projeto imenso, muito maior do que ele, mas no que lhe cabe mostrar - e realizar - Apenas o Fim tem a dimensão de um começo. Um jovem autor que vale seguir. ServiçoApenas o Fim (Brasil/ 2008, 80 min.) - Drama. Dir. Matheus Souza. Livre. Cotação: Bom

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