Tropa de choque

O desconforto com a liberdade de expressão é um dos principais componentes da mentalidade oligárquica do poder à brasileira. Não é à toa que os clãs regionais se preocupam tanto em deter jornais, rádios e retransmissoras locais. A divergência só é permitida até onde simule uma aparência de democracia, conferindo um ar de bonomia paternal. Calar sólidas críticas contrárias é coerente com os motivos pelos quais eles batizam toda obra com seus nomes, distribuem cargos para parentes e funcionários, dão ajudas circunstanciais aos pobres. Sua estratégia de perpetuação no poder foi descrita há mais de 120 anos por Machado de Assis, que notou como os escravocratas alternavam cafunés e castigos, presentinhos usados e esbregues estúpidos. Comandava-se com um sorriso pela frente e um chicote pelas costas; dava-se um agrado de dia e uma senzala à noite. Antonio Carlos Magalhães, elogiado por muitos articulistas como um modernizador nos mandatos de Fernando Henrique Cardoso, era assim. José Sarney, quase sempre descrito como responsável pela recondução à democracia depois do regime militar, é assim. E o verniz cultural, literato, sempre pronto a destacar a cordialidade do brasileiro, é mais uma parte integrante do mobiliário. Mesmo que pronuncie "previlégio", deste assunto o senador entende muito bem. Está há tanto tempo em altos cargos públicos por ser "um homem de diálogo", não um radical; até mesmo seu apoio à ditadura, como membro do Arena, foi convertido por ele como uma luta pela abertura. Veja o tom com que ele e seu filho lidam com o assalto à máquina pública: é doce, afetuoso, descontraído, diminutivo. A neta pede um emprego para o namorado como se pedisse um Nintendo para o dia das crianças; o pai responde que se dará um jeito. Deitados na rede da "normalidade", passam por cima da lei e da ética com apenas uma conversa e uma canetada.Mas ai de quem chutar a porta da casa grande. Aciona-se um comparsa, digo, um compadre instalado no Judiciário e, pronto, os interesses privados têm nova vitória sobre os interesses públicos. Para seguir ganhando o jogo, contar algumas mentiras também é indispensável. Se Renan Calheiros brandiu notas de empresa fantasma para explicar como pagava a pensão da filha, por que Sarney não pode dizer que não conhece um rapaz nomeado por ato secreto, mesmo que tenha sido seu padrinho de casamento há apenas dois meses? Afinal, este é um país sem memória; afinal, "todo mundo" faz isso; afinal, os outros senadores também têm rabo preso; afinal, corrupção existe em toda parte... De afinal em afinal, ficamos certos de que no Brasil os documentos do Pentágono sobre crimes no Vietnã não poderiam ser publicados pela imprensa, pois eram confidenciais, e Richard Nixon não seria obrigado a renunciar, embora tenha mentido sobre ignorar o grampeamento do gabinete democrata.***Vendo o olhar fuzilante de Fernando Collor em direção a Pedro Simon, na terça passada, um filme de 20 anos atrás me passou pela cabeça. Eram as primeiras eleições presidenciais do Brasil depois do obscurantismo verde-oliva. A economia estava aos frangalhos, depois do governo Sarney. E aí surgiu, vindo da oligarquia alagoana, um sujeito que se dizia moderno, que passeava de jet ski e tinha o apoio lamentável de intelectuais como José Guilherme Merquior e Paulo Francis. Quando assumiu, Collor foi antiliberal em tudo: confiscou a poupança da população e montou com PC Farias um esquema de personalização da máquina pública. Do outro lado estava Lula, sindicalista barbudo, muito enturmado com os professores da USP que acreditavam num tal socialismo democrático, defensor de reserva de mercado da informática e estatização do sistema financeiro. E naquele ano, 1989, o Muro de Berlim cairia...Hoje Collor está na tropa de choque lulista - ou trupe, dado seu caráter teatral - ao lado de seu velho parceiro Calheiros. Mandou Simon engolir as palavras porque a mídia não conseguiria tirar Sarney do cargo. (Eles, oligarcas, adoram dizer que opinião pública não é opinião publicada. Mas, quando Collor mandou que fossem às ruas em sua defesa, os "caras pintadas" mostraram que nem sempre é assim.) E Lula comemorou. A seu modo, claro, tem mais semelhanças com eles do que diferenças. Também critica a imprensa como obstáculo entre ele e o povo; aceita mal as críticas, como se viu na ameaça de extraditar o jornalista do New York Times, e jamais se manifesta a respeito dos atentados à liberdade cometidos por Chávez, Kadafi ou Ahmadinejad; alega sempre que "não sabia" quando os escândalos estouram, envolvendo até um irmão seu ("dá dois paus pra eu"); expande os gastos públicos, acreditando que o tamanho do Estado se mede pela quantidade de servidores, e emprega seus partidários sem critério técnico; prefere fazer discurso a construir esgoto.O pior é que, de tanto ouvir que seria o primeiro presidente brasileiro a vir "de baixo", ele nem faz ideia de como assimilou essa ideologia oligárquica. Na semana passada, por exemplo, ele disse que não entende por que uma autoridade deve se afastar do cargo "quando aparecem algumas acusações", ou seja, enquanto não foi condenada pela Justiça. Um dos intelectuais do Morumbi poderia lhe explicar, Lula, mas não vai. Quando as denúncias têm base, com provas documentais e/ou testemunhais, a confiança pública se esvai. Por respeito a ela, e não como último recurso para não ser punido (como Calheiros até hoje não foi), o sujeito deve deixar o cargo, desobstruindo o caminho das investigações. Agora, quando o presidente da República parte do pressuposto de que as 12 acusações contra o "incomum" Sarney são "denuncismo", quem está fazendo julgamento prévio é ele, Lula. E assim a ciranda se fecha, unindo o Brasil de norte a sul na mesma província mental.CADERNOS DO CINEMAFui ao cinema tirar atraso de dois elogiados filmes, o japonês A Partida e o francês Horas de Verão. Às vezes me pergunto se os mesmos críticos que lessem um conto com enredo e diálogos iguais veriam tanta qualidade assim; ou seja, se o cinema não conta com a complacência do envolvimento audiovisual, da maneira quase instintiva como nos interessamos por aqueles rostos e lugares; é fácil gostar, ainda que seja difícil sustentar avaliações tão positivas. A Partida, de Yojiro Takita, tem um argumento ótimo. Um violoncelista desempregado volta à cidade natal e vai trabalhar numa firma que prepara corpos para enterro. Ele mesmo e os outros têm preconceito: um conhecido diz que não é profissão honrada; sua esposa sente nojo. O preconceito, claro, vem do medo da morte, da incapacidade de aceitar que somos organismos e, portanto, perecíveis. Mas o chefe é um mestre. Veste e maquia os cadáveres com a técnica e a paciência de quem faz um origami; contrapõe a tristeza da rotina ao prazer de comer ("Infelizmente, é gostoso"); faz do ofício um gesto de dignidade social. E aí, quando as reações mudam, o filme abandona a sutileza ao mergulhar no sentimentalismo, com muitas tomadas Yo-Yo-Ma do rapaz e seu instrumento ao ar livre, até que o desfecho encomenda o choro da plateia.Horas de Verão, de Olivier Assayas, é o gênero de filme que os críticos adoram exaltar. Uma família visita a matriarca na bela casa de verão, a uma hora de Paris. Ela tem 75 anos e está preocupada com o destino da casa e das obras de arte feitas ou colecionadas por seu tio. O bricabraque inclui pinturas de Corot e Redon; vasos Bracquemont, Daum e Atelier d?Auteil; mesa e vitrine Majorelle; armário de Josef Hoffmann - toda uma parte do primoroso acervo Art Nouveau do Museu d?Orsay. Quando ela morre, os três filhos - uma designer que vive nos EUA (Juliette Binoche), um executivo que mora na China e o primogênito, único ainda morando em Paris - se dividem sobre o que fazer. O tema é óbvio, bem ao gosto da agenda política da maioria dos críticos: o conflito entre globalização e identidade cultural. Mas então tudo se resolve com a venda e, afora a sugestão final de que os netos não seriam assim tão desapegados daquela tradição (nem tão própria assim, pois o Art Nouveau foi um movimento internacionalista), não se sabe o que o filme tem a dizer. POR QUE NÃO ME UFANOSim, a crise começa a acabar, especialmente na China, mas também no Brasil e mesmo nos EUA, ainda que tantos tenham dito que era uma fragilidade estrutural do capitalismo e que pacotes como o de Obama não teriam efeito. O tombo, porém, deixa marcas e é importante não se iludir com a nova euforia das bolsas. A "marolinha" de Lula, por exemplo, se traduziu no pior semestre da indústria desde 1975. O Ipea diz que a desigualdade continuou caindo apesar da crise, mas isso porque ela atingiu empregos de maior renda. E, mundialmente, a regulação do sistema financeiro ainda não foi implantada, gerando risco de novas "alavancagens" sem lastro. Assim como não era o caso de se alarmar tanto com a crise, agora não é o caso de se entusiasmar tanto com a recuperação.

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