Triunfo do baixo orçamento

No ano do Oscar da crise, vitória do ?pequeno? Quem Quer Ser um Milionário? é coerente

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

24 de fevereiro de 2009 | 00h00

Cabelo desgrenhado, camisa amassada, sorriso escancarado - por onde quer que passasse depois da cerimônia de domingo, o britânico Danny Boyle exibia seu Oscar de melhor diretor por Quem Quer Ser Um Milionário? e proclamava a vitória do cinema independente. "É o triunfo do pequeno orçamento, do filme realizado em um espírito familiar", disse ele, depois das oito estatuetas faturadas pela produção anglo-indiana. "Todos passaram por esse tipo de longa. Heath Ledger, por exemplo, que teve seu trabalho reconhecido por Batman - O Cavaleiro das Trevas, mesmo ele começou em filmes menores."Cercado por boa parte de seu elenco juvenil, vindo especialmente da Índia, Boyle pregava o baixo orçamento como aprendizado. "Você é obrigado a conhecer muito bem seu ofício, pois, durante a metade do tempo, você não sabe para onde está indo." Orçado em quase US$ 10 milhões, Quem Quer Ser Um Milionário? deve atingir US$ 100 milhões nesta semana, apenas na bilheteria americana. "É a vitória de um bom roteiro, que sobrevive independentemente de um elenco estelar", completava o produtor Christian Colson.Ele e Boyle contaram que se apaixonaram pela história original de Vikas Swarup pelo seu aspecto romântico. "E não pelo programa de televisão do qual o personagem principal participa", observou o diretor. "Há algo mais profundo, apaixonante e interessante na sua relação com a garota do que a tentativa de se tornar milionário. Fiquei profundamente fascinado por esse aspecto."Usando um ditado de Platão como mantra ("Seja atencioso, para que todos seus conhecidos saibam que você está travando uma dura batalha"), Boyle comandou a filmagem como o chefe de uma família, misturando conhecimentos de diferentes culturas. "Bollywood nos ofereceu o elenco e a produção e Hollywood transformou o filme em um acontecimento mundial. A fusão tornou-se algo fenomenal."O cineasta citou a trilha sonora, premiada com dois Oscars, como bom exemplo dessa mistura. "Trata-se de uma pequena porcentagem do que acontece hoje em Mumbai", disse o músico A.R. Rahman, que faturou as duas estatuetas. "A cidade está se redescobrindo, está cultuando seus valores tradicionais sob uma visão contemporânea e globalizada. E Danny Boyle percebeu isso ao dar tanto destaque para a trilha sonora."Também a forma como o filme foi rodado e editado valorizou a trilha sonora. "Essa história só podia se passar em Mumbai", comentou Anthony Dod Mantle, que, por sua câmera nervosa, intrusiva, ganhou o Oscar de melhor fotografia. "A velocidade e a temperatura que estão no filme são típicas daquela cidade."Conhecido por alguns trabalhos que realizou com os dinamarqueses idealizadores do Dogma (especialmente Thomas Vinterberg), Mantle negou ser ali a fonte vital de seu trabalho. "Sob as regras do Dogma, foram apenas seis ou sete semanas, enquanto passei mais de dez anos trabalhando como documentarista. Aí está a essência do meu trabalho."Tamanho envolvimento alimentou boatos sobre a produção de Quem Quer Ser Um Milionário?. Um deles, que provocou gargalhadas de Danny Boyle na entrevista com jornalistas de todo o mundo, da qual participou o Estado, foi sobre o romance travado entre o jovem casal central. "Eles ficaram muito amigos, mas acho que não passou disso", disse. A história também foi negada pelo produtor Christian Colson. "Passamos quase oito meses juntos, notamos como eles amadureceram em tão pouco tempo, mas nada mais que uma amizade. Só se mentiram para todos."A excitação por acompanhar a premiação, aliás, contagiou o jovem grupo. Antes da cerimônia, quando passeavam pelo tapete vermelho, os meninos não pensaram duas vezes antes de correr até Meryl Streep, em busca de autógrafos e beijinhos. Surpresa, a atriz retribuiu o carinho, conversando com todos durante bom tempo.Terminada a cerimônia, todos foram para o Baile do Governador, tradicional festa que ocorre no próprio Kodak Theatre e na qual os premiados dão uma passada antes de seguir para outras baladas.Em meio a tanta animação, surgiu a questão sobre o futuro de cada um, depois de passada a euforia com a premiação. Para Danny Boyle, ainda é cedo para se pensar nisso. A melhor resposta, no entanto, veio do comediante Jimmy Kimmel dita em seu programa de TV na rede ABC, viperino na medida certa: "Se eu fosse algum deles, me aproximava da Angelina Jolie. Quem sabe não seria adotado?"

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