Tristeza americana

Saul Bellow e John Updike já têm um herdeiro para narrar a vida nos subúrbios dos EUA: Richard Ford

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

John Updike (1932-2009) é sempre lembrado quando o assunto é a vida minúscula nos subúrbios americanos. Com efeito, o protagonista de sua tetralogia sobre o fim do sonho americano, Harry "Coelho" Angstron, ilustra como nenhum outro a modorrenta existência suburbana que enterra a classe média americana. No entanto, outros pisaram nesse terreno antes dele. São seus antecessores John Cheever (1912-1982) e Richard Yates (1926-1992), redescoberto por conta da recente adaptação cinematográfica de seu Revolutionary Road (Foi Apenas Um Sonho). Como todos esses ficcionistas morreram, é justo que o prefaciador do último preserve a tradição de revisitar o subúrbio em busca da América profunda, aquela que vive da degradação interior dos seus massacrados.

Esse escritor é Richard Ford, premiado com o Pulitzer e autor de O Sal da Terra (Editora Record, tradução de Maria Beatriz de Medina, 602 págs., R$ 69,90), livro que encerra a trilogia sobre outro "Coelho" do subúrbio, o personagem Frank Bascombe. Sobre ele, Ford conversou por telefone com o Estado, garantindo que a história de seu personagem termina por aqui. Pode ser que um dia mude de ideia. Updike mudou.

Frank Bascombe tem semelhanças com o "Coelho" de John Updike, sempre correndo para sobreviver à insignificância da vida suburbana. Enquanto aquele protagonista vive a existência frustrada de um ex-campeão estudantil de basquete transformado em chefe de uma família disfuncional, Frank Bascombe era até agora um personagem em ascensão social. Nasceu no livro The Sportswriter (1986), já comprado também pela Record, que lançou ainda a segunda parte da trilogia, Independência (1995).

Em The Sportswriter, Bascombe tinha 38 anos , grande ambição literária e escrevia para uma revista de esportes. A vida, então, não lhe parecia tão pesada, até se divorciar e perder o primeiro filho, Ryan, vítima da síndrome de Reye. Para piorar, um amigo do Clube dos Divorciados se mata após ter sua primeira experiência homossexual. Detalhe: Bascombe toma conhecimento do suicídio durante um almoço de Páscoa. Na segunda parte da trilogia, Independência, já conformado em ser o "arquiordinário" americano do subúrbio, Bascombe atura um problemático filho adolescente de 15 anos, que rouba lojas e às vezes late como um cachorro. Além dele, suporta o atual marido da ex-esposa, um republicano obtuso. O título do livro faz alusão a outro feriado nacional, o 4 de Julho, marcando a independência profissional do suburbano. Bascombe torna-se uma figura socialmente respeitável, um corretor de imóveis de New Jersey..

Finalmente, em O Sal da Terra, ele enfrenta o outono de sua desesperança. Frank Bascombe, no Dia de Ação de Graças, não tem muito a agradecer. Em 2000, ao completar 55 anos, enfrenta um câncer de próstata, o assédio da primeira esposa e a falência do segundo casamento - sua mulher volta para o ex-marido, que julgava morto. Por tudo isso, Richard Ford já foi comparado mais de uma vez a Saul Bellow (1915-2005), de quem a Companhia das Letras está lançando uma nova tradução de As Aventuras de Augie March (leia resenha na página 7). Também um romance de formação, não faltam aos personagens de ambos os escritores motivos para crises existenciais.

Bellow não gostava da cultura da reclamação, alegando que a literatura realista era uma "literatura de vítima", o que explica sua "melancolia cômica". "Para mim, seu Herzog é um livro paradigmático", reconhece Richard Ford. O escritor, hoje com 64 anos, era jovem e vivia em Chicago (onde se passa parte daquela obra de Bellow) quando leu a saga de Moses Herzog, o aspirante a escritor que escreve cartas de modo compulsivo. "Reconheço em Bellow uma sensibilidade particular, um autor mais interessado em explorar a mente de seu personagem, fazer dele um espelho, do que Updike." Em tempo: Ford não vê semelhanças entre Bascombe e Harry "Coelho" Angstron. "A única coisa que ambos têm em comum é que são dois machos americanos", diz.

De fato, o corretor de imóveis criado por Ford, a exemplo do Herzog de Bellow, recusa-se a ser definido pelo ambiente em que vive, como observou um acadêmico americano. O anti-herói Bascombe não é exatamente um pessimista, como os personagens de Richard Yates, derrubados pelo tédio e o desespero. Otimista, ele alimenta sonhos idílicos para não sucumbir à opressão urbana. Se a interação com membros de sua família parece tarefa difícil, seu envolvimento com a comunidade é impossível. Ford faz seu personagem confrontar a realidade ao colocar em seu caminho uma ex-namorada que trabalha no World Trade Center. É conveniente explicar que O Sal da Terra se passa no outono anterior à queda das torres gêmeas , o que descarta alegorias políticas. No entanto, a crise de Bascombe coincide com a chegada de Bush (em 20 de janeiro de 2001) à Casa Branca. Ford, um democrata, votou em Obama e esclarece que não usou simbolicamente o câncer de seu personagem para se referir ao período mais crítico da América: "Detesto metáforas."

O escritor, que raramente lê resenhas de seus livros, diz concordar com um crítico inglês que comparou a filosofia de seu personagem ao pensamento do austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951): "De fato, Wittgenstein aponta para os limites do autoconhecimento e a assimétrica relação entre a primeira e a terceira pessoa, o que torna difícil a função do narrador, condenado a constatar, como ele, que a vida presente é tão enigmática quanto a eternidade."

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