Trilha rara de Ennio Morricone volta às lojas

Música do maestro para o filme revela confronto entre classes sociais com atonalismo no papel de vilão

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 00h00

Assim como o épico de Bertolucci, Novecento, lançado pelo selo Cinemax, esboça uma radiografia da Itália ao eleger dois representantes de categorias sociais distintas, nascidos no mesmo dia na virada do século 19 para o 20, a trilha sonora composta por Ennio Morricone traduz o confronto entre extremos - aristocratas e proletários -, recorrendo às transformações musicais de cada época. Mais exatamente, Morricone divide os temas principais em quatro estações, o verão de 1908, o outono de 1922, o inverno de 1935 e a primavera de 1945 que, teoricamente, deveria trazer aos italianos uma nova esperança de superar o passado fascista. Vejo trecho de 1900 e ouça faixa do CDA trilha sonora original, fora de catálogo há quase três décadas, acaba de ser relançada na Itália pelo selo Edel sob licença da EMI Music, que a lançou em LP em 1976. O selo Mediane já havia produzido há dois anos um CD, Bernardo Bertolucci, que reúne 16 temas de filmes dirigidos pelo cineasta, entre os quais se destacavam duas das faixas dessa trilha, Romanzo (tema principal) e Tema di Ada, escrito para acompanhar os passos da sofisticada Dominique Sanda. No longa, ela interpreta Ada, a francesa aristocrata destinada a viver no campo por conta de seu casamento com o latifundiário italiano Alfredo (De Niro), amigo de infância do camponês Olmo (Depardieu) e agora em territórios opostos - tanto físico como ideológico.Até pela filiação ideológica de Morricone, alinhado a diretores de esquerda como Pasolini e Bertolucci, os temas dedicados ao avanço do Quarto Estado são os mais eloquentes. O século 20 que começava seria o da nova classe vitoriosa, o proletariado, o Quarto Estado pintado no histórico painel do socialista Palizza - que Bertolucci usa no filme e inspira Morricone a compor um hino derramado (Romanzo) de escalas ascendentes, executadas por um belo naipe de cordas e vozes femininas.Em contrapartida, o outono da desesperança italiana, em 1922, quando se estabelece o Estado fascista de Mussolini, ganha um tema sinistro, atonal (Morricone sempre recorre às lições da escola de Viena ao registrar a linha musical do desequilíbrio). Assim, Autunno 1922 é o oposto da melódica Primavera 1945, variação do tema principal com instrumentos de sopro. O tema final, Olmo e Alfredo, revela, enfim, o apaziguamento que vem com a morte do patriarca. É solene, discreto, melancólico. É Morricone pagando tributo ao mestre, Goffredo Petrassi.

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