Tributo a Gibran, profeta da união com a natureza

Homenagens ao escritor, pintor e filósofo libanês incluem lançamento de medalha, mostra e debate sobre sua obra

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2008 | 00h00

O libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931) é mais conhecido como autor de um livro que a contracultura dos anos 1960 elegeu como sucedâneo secular da Bíblia: O Profeta. O livro já tinha mais de 40 anos (é de 1923) quando a geração dos Beatles o descobriu, fazendo dele a obra que iria anunciar a "nova era". Best-seller mundial traduzido em 40 idiomas, O Profeta fala de um visionário, Al-Mustapha (o "bem-amado", "eleito", em árabe) que, após ter vivido numa cidade estrangeira, prepara-se para uma viagem que talvez não tenha volta (a morte?), deixando seus discípulos desolados - porém instruídos sobre o amor, a amizade e a liberdade. Como seu profeta, Gibran foi um líder espiritual influente. E não só entre contemporâneos. Sua mensagem atingiu a comunidade artística dos anos 1960 - incluindo o escritor Paulo Coelho, então autor das letras das canções de Raul Seixas.Aluno do escultor francês Rodin, pintor, poeta, filósofo e um dos escritores responsáveis pelo renascimento da literatura árabe no século 20 - ao lado de Ameen Rihani (1876-1940) e Mikhail Naimy (1889-1988) -, Gibran será homenageado, a partir de hoje, com uma série de eventos que comemoram os 125 anos do seu nascimento, começando com um coquetel no Clube Atlético Monte Líbano, hoje, para marcar o lançamento de uma medalha comemorativa pela Casa da Moeda do Brasil e o bilhete da Loteria Federal, que corre no sábado com o retrato impresso de Gibran.Além dessa homenagem, a presidente da Associação Cultural Brasil-Líbano, Lody Brais, conseguiu do Museu Gibran filmes sobre o poeta e artista, que começam a ser exibidos no sábado. Uma exposição com livros, pinturas, cartas e documentos pessoais será inaugurada na sexta no hall do teatro do clube e, no domingo, um busto do escritor será instalado na praça que fica entre as Avenidas República do Líbano e Afonso Brás, em São Paulo. Está também programada uma leitura dos textos de Gibran, seguida de debate sobre sua obra, no dia 3, também no clube.Gibran não escolheu ao acaso o título de seu mais famoso livro. Ele dizia que a ambição de um russo era ser santo e a de um oriental, profeta. E o escritor tentou ser um, escrevendo sobre questões que o perseguiam desde a infância, sendo a principal delas a corrupção dos valores religiosos dentro da igreja (seu avô foi excomungado). De família maronita, Gibran tentou, em O Profeta, unir crenças e filosofias aparentemente inconciliáveis, do sufismo ao pensamento de Nietzsche, passando pela poesia do místico William Blake, sem negligenciar os princípios cristãos que marcariam livros como Jesus - O Filho do Homem (1928), o mais longo de seus títulos e absolutamente original na abordagem do Cristo distante da aura sobrenatural.No entanto, seu papel não se resumiu à criação de aforismos cristãos citados por Paulo Coelho. Graças ao enorme talento literário, Gibran fez amizade com pessoas influentes nos Estados Unidos, onde passou boa parte de sua vida. Sob a proteção da mecenas Mary Elizabeth Haskell, milionária de Boston, Gibran foi estudar em Paris com Rodin. Fez mais: leu Balzac, devorou Voltaire e voltou aos Estados Unidos como militante, decidido a lutar pela independência da Síria, então atrelada ao império otomano. Gibran envolveu-se em campanhas para levantar fundos destinados a socorrer libaneses pobres, dedicando poemas de guerra a seus conterrâneos (como Morto Está Meu Povo, de 1916). Com o fim da guerra, seus escritos se tornaram metafísicos. Gibran passou a defender que poetas e artistas eram mais importantes para a evolução da consciência que os políticos. O poeta como profeta nasce por volta dos anos 1920, quando Gibran publica Temporais, recomendando aos leitores uma distância cautelosa da sociedade e maior apego à natureza. Há quem defenda, no entanto, que O Louco (1918) marcou a virada de Gibran, ao usar o conceito sufi que identifica no isolamento do poeta um sinal de sabedoria contra um mundo cada vez mais insano. Ao propor a união mística com a natureza e resgatar o conceito rousseauniano do homem corrompido pela civilização, Gibran virou herói dos hippies. Mas sua mensagem sobreviveu aos anos 1960. Serviço125 Anos de Gibran Khalil Gibran. Clube Atlético Monte Líbano. Av. República do Líbano, 2.267, 5088-7070. 3.ª a dom., 14 h às 22 h. Grátis. Até 9/4

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