Três recortes da arte dos anos 1960

Centro Maria Antonia encerra ano com mostras de trabalhos de Flávio Império, Maurício Nogueira Lima e Marcello Nitsche

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

05 de dezembro de 2008 | 00h00

O já tradicional formato das exposições que compõem o ciclo de mostras do Centro Universitário Maria Antonia sofreu transformação nessa última edição, adquirindo caráter histórico digno de nota. Aproveitando a movimentação para relembrar as quatro décadas que nos separam de 1968, a instituição encerra o ano exibindo trabalhos desenvolvidos por Flávio Império (1935-1985), Maurício Nogueira Lima (1930-1999) e Marcello Nitsche naqueles anos movimentados e conturbados.Concebidas como recortes separados, que enfatizam momentos importantes da produção desses autores e sua relação com o contexto artístico e político do período, as três mostras têm pontos de encontro. O primeiro é o fato de todos serem artistas arquitetos, com interesses que perpassam o universo mais específico das artes visuais ou do teatro, onde são normalmente alocados, e se ampliam para outras áreas como a apropriação e potencialização do espaço expositivo, o uso da imagem em movimento (super 8) e de elementos derivados da fotografia, da cultura de massas e das artes gráficas. Curiosamente, os três participaram juntos da antológica exposição Nova Objetividade Brasileira, em 1967. Há também em comum entre eles o fato de que suas obras têm tido nos últimos tempos menos visibilidade do que sua importância histórica indicaria. "Um dos nossos objetivos é jogar luz naquilo que merece atenção", afirma João Bandeira, curador executivo do Maria Antonia e organizador, com Ana Cândida de Avelar, da mostra dedicada a Maurício Nogueira Lima. No que se refere à diversidade de meios e expressões, a mostra de Nogueira Lima, na grande sala do segundo andar, talvez seja a mais bem-comportada delas. Mas não deixa de ser surpreendente a enorme transformação pela qual passa a obra do artista ao longo da década de 60, quando começa a explorar uma efervescente iconografia de massas, caracterizada basicamente pela "redução e seriação da imagem, pelos contrastes brutos entre cores industriais e pela pouca profundidade ou fusão de fundo e figura", como afirmam os curadores. Mas, mesmo entre Marilyn Monroe e figuras populares anônimas, saídas das ruas das metrópoles - um dos destaques da exposição é um retrato de Roberto Carlos, que curiosamente pertence à coleção do músico, que a cedeu para essa exposição -, Nogueira Lima não abandona o rigor e o planejamento do pensamento construtivo, que caracteriza sua obra anterior e posterior.A ironia é, sem dúvida, um dos recursos mais explorados, como podemos ver nas obras de Nitsche, que ocupam todo o primeiro andar do prédio. Dentre elas se destaca a peça O Ó, mostrado originalmente no antológico Salão de Arte Moderna do Distrito Federal de Brasília, em 1967, e que só agora é apresentado em São Paulo. Do artista também será possível ver a Bolha 1 (instalação na qual uma bolha vermelha inflável toma pouco a pouco de assalto o espaço expositivo, num movimento de expansão e retração que remete à respiração) e outras experimentações com sinais de comunicação, objetos e sons do cotidiano, bem como um conjunto de filmes de sua autoria. Por coincidência, Nitsche abre mostra dia 13, na Estação Pinacoteca, desta vez com seus trabalhos mais recentes, da série Explosões, que ele vem desenvolvendo nos últimos dois anos.Se Nogueira Lima se atém basicamente à pintura e algumas colagens e Nitsche parece corresponder ao título de o mais pop dos artistas brasileiros, que lhe foi dado por Mario Schenberg em 1967, Império parece ser o exemplo mais radical de mergulho profundo na experimentação de materiais, técnicas e linguagens, transformando a relação entre arte e vida. Como escrevem os curadores Tatiana Ferraz e José Geraldo Silveira no texto da exposição - que reúne estudos de cenário e figurino, obras gráficas, pinturas e filmes -, "tais obras expõem um mundo heterogêneo, superposto na mesma matriz plástica, que produz um quebra-cabeça da vida, procurando reorganizar valores sociais, política e a própria arte".Essa frase, ao mesmo tempo que sintetiza o espírito da obra de Império, parece dar conta de todo o ciclo de exposições e de seu objetivo de tratar das tensões, anseios e frustrações do período sem necessariamente ter de se debruçar sobre a relação entre arte e política. A única remissão mais direta aos acontecimentos de 1968 e ao conflito opondo estudantes da USP e do Mackenzie, que ficou conhecido como "a batalha da Maria Antonia", é a mostra 1968 Vou Ver, uma seleção de fotografias do período feitas por Carolina Soares e que já estava em cartaz no Maria Antonia desde outubro. ServiçoMaurício Nogueira Lima, Marcello Nitsche e Flávio Império. Centro Universitário Maria Antonia. Rua Maria Antônia, 294, Higienópolis, tel. 3255-7182. 3.ª a 6.ª, 12 h/21 h; sáb. e dom., 10 h/18 h. Até 1.º/2

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