Três exposições resumem história da gravura no País

Destaque das mostras é a obra de Samico

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2014 | 17h56

É possível traçar um panorama histórico dos dois últimos séculos no Brasil recorrendo apenas às impressões de artistas populares, como o editor paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918), que, no fim do século 19, publicou em Pernambuco os primeiros folhetos de cordel, alguns usados por mestre Suassuna em O Auto da Compadecida, como a história do gato que defecava dinheiro. Parte desse rico acervo de imagens está em três exposições que reúnem o melhor da gravura brasileira produzida desde então. Neste domingo, termina uma delas, Nordeste Reinventado na Imagem Gravada, no piso Caio Graco do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Com curadoria do artista paraense Bené Fonteles, que doou sua coleção de 490 obras à Coleção de Arte da Cidade de São Paulo (antiga Pinacoteca Municipal), a exposição reúne 240 xilogravuras. 

As outras duas mostras são promovidas pela Caixa Cultural São Paulo. Já aberta, a coletiva Alma Brasileira - 100 anos de Gravura segue até 30 de novembro com obras pertencentes ao acervo do Museu da Gravura da Cidade de Curitiba. A mostra destaca 30 artistas brasileiros de diferentes gerações, de Carlos Oswald a Marcelo Grassmann, passando por Goeldi. Finalmente, no dia 18, a mesma Caixa abre retrospectiva dedicada ao gravador recifense Gilvan Samico (1928-2013), cujos trabalhos também podem ser vistos na mostra do CCSP.

Graças à generosidade de Fonteles, São Paulo passa a contar com uma coleção que resume 70 anos de evolução da xilogravura no Nordeste, desde um raro exemplar de Mestre Noza (1897-1983), o primeiro a ser reconhecido internacionalmente, nos anos 1960, até contemporâneos como Elias Santos, de Sergipe. De Pernambuco, lugar de origem de mestres xilógrafos, Fonteles selecionou alguns dos melhores artistas da mostra Nordeste Reinventado, entre eles Amaro Francisco e seu irmão, o inconfundível J. Borges (José Francisco Borges), autor de xilogravuras que passaram a ser disputadas por colecionadores depois que ilustrou capas de livros estrangeiros, como As Palavras Andantes (1993), do autor uruguaio Eduardo Galeano, e ser tema de reportagem do jornal The New York Times. Ariano Suassuna o considerava o melhor gravador do Nordeste.

Suassuna, aliás, é um dos autores cujos textos foram selecionados por Bené Fonteles para um livro que prepara sobre a região, ainda sem previsão de lançamento. A vida de J. Borges é uma espécie de síntese da experiência existencial de vários xilógrafos nordestinos. Fonteles observa que a xilogravura no Nordeste “nasce da mão calejada do homem do campo, que com a enxada vai cavando a terra e com a goiva improvisada vai sulcando o taco de madeira”. Foi assim que nasceu a gravura de Borges, ex-camponês e oleiro. Sem dinheiro para pagar um ilustrador, mas decidido a virar cordelista, ele passou a entalhar em madeira ícones religiosos, passando a fazer matrizes por encomenda.

Nem todos, é verdade, passaram por tais dificuldades. Gilvan Samico, por exemplo, era filho de classe média e começou a fazer gravura impressionado com o expressionismo de Goeldi, depois seu professor na Escola Nacional de Belas Artes (RJ). Nos anos 1950, estudou xilogravura no MAM de São Paulo com um mestre modernista, Lívio Abramo, mas jamais virou as costas para a cultura popular nordestina. Nos anos 1970, convidado por Suassuna a integrar o Movimento Armorial, produziu belas xilogravuras baseadas no cordel, mas de matriz erudita, reconhecidas internacionalmente (ele tem obras no Museu de Arte Moderna de Nova York e participou duas vezes da Bienal de Veneza).

Para a individual Linhas, Traçados e Cores: no Reino de Gilvan Samico, que será aberta dia 18, na Caixa Cultural, a curadora Renata Pimental selecionou 39 xilogravuras e cinco estudos do artista. As obras mais antigas (desenhos raros) são de 1958 e a mais recente, uma gravura do ano 2002, traz duas sereias numa simétrica alegoria barroca.

Segundo a curadora da mostra, a professora Renata Pimentel, Samico “bebeu em muitas fontes, em muitas águas”. Era um grande leitor e suas referências, conclui, “não eram óbvias”. Não é uma obra para ser vista superficialmente, mas para ser contemplada e analisada com a seriedade com que se lê um livro de Guimarães Rosa.

NORDESTE REINVENTADO

Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4000. 3ª a 6ª, 10 h/20 h; sáb. e dom., 10 h/18 h. Grátis. Até 12/10.

ALMA BRASILEIRA

Caixa Cultural. Praça da Sé, 111, 3321-4400. 3ª a dom., 9 h/20 h. Grátis. Até 30/11.

NO REINO DE GILVAN SAMICO

Caixa Cultural. (endereço acima) Até 30/11. Abre em 18/10.

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