''Très bien, obrigado, sorry...'' Um ensaio com o maestro Tortelier

O Estado acompanhou durante uma manhã, na Sala São Paulo, o estilo do francês de conduzir a Osesp

Entrevista com

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2009 | 00h00

O maestro sobe ao palco pouco depois das 10 da manhã de terça; a orquestra o espera afinada. "Bem-vindos de volta à minha terceira, e espero que não última, semana com vocês", ele brinca, enquanto abre a partitura. "Aliás, tomei minha primeira decisão como regente principal: mudar a orquestra para Paraty." Os músicos riem, batem os pés no chão em sinal de aprovação. "Eu sei ser popular." Um breve silêncio. "La Valse, a partir de 54." E a música começa a soar na Sala São Paulo vazia. Especial sobre as mudanças da OsespLa Valse estará no programa desta semana da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, ao lado de outra criação de Ravel, Sheherazade; na primeira parte, Mozart - a Sinfonia Paris e árias das óperas Bodas de Fígaro e Don Giovanni, com solos da soprano alemã Juliane Banse. Será o terceiro programa regido pelo maestro francês Yan Pascal Tortelier na condição de regente titular do grupo (os próximos serão apenas em maio). Paraty? Ele esteve lá no último fim de semana e impressionou-se com a beleza da região. Faltou alguma coisa? Ah, sim, o "54", que não é nada mais que parte da sequência numérica que, numa partitura, ajuda maestro e músicos a se localizarem durante os ensaios.Esclarecimentos feitos, voltemos ao ensaio. Tortelier interrompe os músicos. "Por favor, não toquem mais forte do que isso. Clarinetes, quero ouvi-los nessa passagem." Mais alguns compassos. "Eu sinto muito", começa o maestro. "La Valse tem milhões de coisinhas que precisam ser acertadas para que o resultado final fique bom. Acreditem, vocês vão gostar. Por enquanto, porém, tenham paciência e me deixem cozinhar um pouco." Logo, de volta à música. Aos violinos, a orientação é clara: "Não toquem de maneira vertical e rápida, mas, sim, horizontal e melódica." Os braços desenham a recomendação. Mais uma vez. "Très bien."Très bien? O idioma, em geral, é o inglês. Mas nem sempre ele resiste. "I?m afrrrrraid", vem com o sotaque característico. "Alors" sinaliza a retomada do ensaio. Obrigado, claro, ele já fala em português, assim como o seu posto, "regente titular". A certa altura, não tem jeito, acaba escapando um "Oh, shit!", quando se atrapalha em uma recomendação para a orquestra. O clima, no entanto, é descontraído. Os músicos caem na gargalhada. Ele coça a cabeça. Depois de ir até o fim de La Valse, começa a voltar. "Forty-six, s?il vous plait." Dá uma orientação específica ao tímpano. "Tente, se você ficar feliz com o resultado, a gente mantém." Retoma o ensaio. Atenção. "And... tempo, un, deux, trois." É o clímax da peça. Faz sinal de positivo. E se volta para a plateia, mais especificamente ao conselheiro da Fundação Osesp Pedro Moreira Salles, que chegou pouco depois do começo do ensaio. Sorriem."O primeiro ensaio é o momento de acerto de pequenos detalhes técnicos", ele diz mais tarde, enquanto almoça e conversa com o Estado no restaurante da Sala São Paulo. "Minha preocupação é que não toquem forte demais. Quanto mais forte você toca, menos detalhes consegue perceber. É fundamental que os músicos ouçam a si mesmos. Depois disso, vem tudo naturalmente." Ravel é uma de suas especialidades. "La Valse foi a primeira peça que regi na carreira. E tenho com ele uma ligação próxima. Acho que é uma questão de escola, fui treinado nesse espírito, nesse ambiente musical. Estudei com Nadia Boulanger, que conheceu Ravel, Debussy." E a combinação com Mozart? "Ele foi uma enorme influência para Ravel. E há algo na sua música que é muito clássico em estilo. Ravel, claro, é um homem do século 20 e não é um autor neoclássico, como Stravinski. Mas é clássico em temperamento. Há algo a ser dito sobre a claridade de sua escrita.""A salada é realmente gostosa", ele interrompe a si mesmo. Já que falou em comida.... "Da feijoada, gostei muito. E de Paraty também." Voltemos à música. "Nestas primeiras três semanas, acho que encontrei não apenas o que esperava mas, provavelmente, ainda mais. A orquestra, em todos os sentidos, torna meu trabalho muito fácil. Não sei se faço o mesmo com eles,. mas..." Desde o primeiro concerto, já regeu obras russas, escandinavas, francesas e do repertório clássico. "Essa diversidade me deixou confiante quanto ao que será possível fazermos juntos em termos de repertório. Estou fascinado pelo desenvolvimento musical brasileiro, em especial com essa orquestra. O grupo cresceu muito com John Neschling. Nosso trabalho é garantir que continue a se desenvolver e desabrochar, até mesmo em escala internacional. Precisamos ir adiante."Gravações? "Há planos excelentes, na mesma linha iniciada por Neschling. Seu projeto foi muito bem-sucedido. Não há segredo. A orquestra precisa continuar crescendo. E crescer significa encontrar e estabelecer sua identidade no cenário musical." E qual seria ela? "Precisamos estabelecer nossa reputação como uma orquestra eclética, que tem muitas facetas e possibilidades, seja em repertório, seja em estilo de interpretação. É importante não impor um estilo à música, mas, sim, permitir que a música imponha seu estilo a nós. Quanto às gravações, ainda é cedo para dizer quais meus planos, mas espero poder iniciar algo bom e promissor para a orquestra."Depois do salmão, um café e um doce na cafeteria ao lado. Uma senhora do público tenta ajudá-lo na comunicação com a atendente. "Ela já sabe de qual eu gosto", ele brinca. E gostou da reação do público, apesar da identificação que tinha com John Neschling. "Fiquei muito contente e agradecido." Chegou a conhecer seu antecessor? "Sim, quando estive aqui no ano passado como convidado. E acho que nenhum de nós poderia imaginar o que aconteceria depois." Mas a conversa se volta mais uma vez ao futuro. "Essa orquestra tem uma qualidade dupla. Ela tem um treinamento muito sério, que vem da tradição germânica e se encaixa no modelo de Neschling. Ao mesmo tempo, há a mentalidade brasileira, latina, e tudo isso junto leva a um bom resultado. Meu trabalho é diferente do dele, quero trazer um outro tipo de sabor ao trabalho da Osesp. Já imaginou essa orquestra no ano que vem, na Europa, tocando os Choros de Villa-Lobos e La Valse no Concertgebouw, em Amsterdã? Não se trata de ser melhor que a orquestra deles. Mas de mostrar a eles como se deve tocar Villa-Lobos e La Valse. Será interessante."Depois do doce, o maestro volta ao camarim antes da segunda parte de ensaios. Mozart, Sinfonia Paris. Começa do início da sinfonia e demora até interromper os músicos com pequenas mudanças. A ênfase é nas dinâmicas, "ou então essas recapitulações de temas ficam muito tediosas". "Vamos ressaltar o drama dessa música." Ainda assim, a música soa pesada. "Eu sinto muito, mas acho melhor diminuir uma estante dos violinos." Os últimos dois violinistas deixam o palco. "Desculpa, hein?! Mas voltem amanhã", diz a eles. À orquestra, completa: "É chato fazer isso, mas precisava ver como Mozart soava nesta sala antes de decidir isso." Agora, ele já sabe. ServiçoOsesp. Sala São Paulo (1.484 lug.). Praça Júlio Prestes, s/n.º, 3223-3966. 5.ª e 6.ª, 21 h; sáb., 16h30. De R$ 30 a R$ 140

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