Trejeitos e voz de menina revoltada

Com a imagem e a voz intactas do início da carreira, em 1995, Alanis Morissette agradou até mesmo aos mais pessimistas

Marco Bezzi, O Estadao de S.Paulo

05 de fevereiro de 2009 | 00h00

A Alanis Morissette que subiu ao palco na noite da terça-feira no Via Funchal lotado foi a mesma menina revoltada que ganhou o mundo em 1995. Naquele ano, Jagged Little Pill virava mais uma página na história da música pop. Versos e refrões de You Oughta Know, Head Over Feet e You Learn a ascenderam como a nova rainha das fracas e rejeitadas, que pela primeira vez viam como paradigma uma menina da mesma "turma".Quatorze anos mais velha, Alanis repete o roteiro que sempre a acompanhou pelo Brasil - é a quarta passagem da canadense pelo País, que ainda toca hoje em Belo Horizonte, no sábado em Florianópolis e na terça em Porto Alegre. Os gritos histéricos anteciparam sua chegada ao palco com 20 minutos de atraso, às 22h20. Com Uninvited, a velha Alanis refletiu a adolescente dos anos dourados. Sacudia freneticamente as longas madeixas, corria desajeitadamente para trás, tremia. Com um repertório que privilegiou as músicas do seu melhor álbum - Jagged Little Pill -, Alanis foi uma maquininha exata: alternou durante a uma hora e meia de espetáculo músicas novas e clássicos juvenis. Era uma montanha russa de emoções, especialmente para os mais velhos, que pouco se importavam com o que a menina tinha a dizer de novo.Se com Not as We - canção do recente Flavors of Entanglement - emocionou os nascidos após os anos 90, com All I Really Want tirou um sorriso gostoso dos trintões. Sem ter revelado grandes composições após Jagged..., Alanis decidiu chafurdar suas mágoas e lágrimas através das canções dessa joia rara. Tocou oito faixas de um total de 13 que o álbum traz. Podia, assim, virar refém e uma caricatura do que mostrou no passado. Felizmente, passa longe desse rótulo. A face que mostrou até agora durante sua passagem pelo País - seja em cima do palco, no trato com a imprensa e em programas de auditório - transpira honestidade.Vestida com uma regata, colete e calça preta, assistia com visão privilegiada meninas - na sua maioria de óculos e cabelo preso - e casais de diferentes tipos e gêneros se esgoelando. Como de costume, falou pouco com o público. Foi só depois de Not as We que soltou o primeiro "obrigado". No mais, disse que sentia saudade de São Paulo, apresentou seus cinco competentes músicos (dois guitarristas, um baixista, baterista e um tecladista) e bebeu goles e goles d?água durante todo o show.Na parte final, levou sua banda para a frente do palco e despiu quatro canções para o formato acústico. Hand in My Pocket foi a mais aplaudida.O bis teve o retorno do formato elétrico. You Learn, Ironic e Thank You selaram de vez o túnel do tempo. Em Ironic, brincou com o verso "... é dar de cara com o homem dos seus sonhos e conhecer a sua linda mulher..." quando trocou para "... e conhecer seu lindo marido". Os casais do mesmo gênero vibraram.Ver Alanis em cima do palco é esquecer que ela já chegou a vender 30 milhões de cópias de um mesmo CD. Ela é a vizinha do apartamento ao lado, a cantora da sua banda de rock, sua melhor amiga. A imagem e a voz intactas agradaram mesmo aos mais pessimistas.

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