Trechos

A morte de Clark Gable, provocada, segundo as más línguas, pelos atrasos de Marilyn, pesa-lhe na consciência. Ela se recrimina. Procurou viver como todo mundo, bancou o jogo com três maridos diferentes, mas seu demônio íntimo a empurra para um acerto de contas com os homens e também a faz querer tudo na hora. Ela é como uma criança malcriada, caprichosa e consciente de seu poder. A profissão a infantiliza: servem-na, levam-na de um lugar para outro, mimam-na, oferecem flores, pintam seu camarim, carregam-na no colo. Os produtores, os roteiristas, os assistentes, os psicanalistas, quem estiver por perto, no estúdio, se encarrega dela. Tornou-se uma deficiente e constrói mentiras para continuar. Há anos ela diz que os pais morreram e que nunca os conheceu, o que não é verdade. Amplia o desastre que foi sua vida para causar pena. Coloca-se na posição de vítima e pratica um estranho coquetel, com uma mistura de desprezo, sensualidade e absoluto egoísmo. Com JFK, ela tem o seu duplo invertido: Kennedy é uma criança rica, arrogante e incapaz de amar, exceto por breves períodos, em geral confundidos com a concupiscência. No fundo, a ambos falta amor: são pobres pessoas, pobres coitados. Juntos, conseguem migalhas de sentimentos. Hoover, a CIA, Hoffa, Carlos Marcello, Sam Giancana, RFK. Todo mundo e mais o irmão. Nunca um ser humano suscitou semelhante orgia de fitas magnéticas. É realmente alucinante. Marilyn não pode espirrar, sentar e pensar um pouco mais alto sem que dez pessoas a escutem. Não é mais espionagem, é um exame com microscópio eletrônico.Diante do microfone, Marilyn Monroe livra-se da estola de arminho e, sozinha, entoa a imortal versão de Happy Birthday, no meio de um silêncio religioso (...) Dorothy Kilgallen explicaria, em sua crônica: "É como se ela fizesse amor com o presidente, diante de 40 milhões de telespectadores."

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