Trecho de ''''Novos Contos Fabulosos''''

E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras - reco-reco, tabibitati, ronronar, core-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada. Quem é que eu sou? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não se fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois, as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e Ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda contra o destino, e ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui. Vêem o que sou? E onde estou? E por que foi? Ah, sim, Millôr, é o que eu dizia. Nasci no Méier, aos nove anos de idade, onde é que eu já ouvi isso? Aqui estou porém, tão magro e tonto, vago e preocupado: no escuro não enxergo, não entendo do que não sei, anseio pelo desconhecido. Se parto, rói-me a separação. Sou como toda gente. Já me lembro: estudei na Escola Enes de Sousa, no Méier, onde, depois, fundei a Universidade de mesmo nome. Mas meus cursos maiores são de rua (e uma ou outra estrada), com seus currículos vitais de malandragem e medo. Dou um boi pra não entrar numa briga. Dou uma boiada pra sair dela. Aos dez anos de idade, vendi meu primeiro desenho pra jornal e me tornei alvo de admiração geral (minha mãe e minha avó). Aos quinze já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil. Pois sou popular por natureza, por mais que me esforce pra ser hermético e profundo. Se eu chego e digo que achei um ninho de mafagafos com sete mafagafinhos, todos percebem logo que quem os desmafagafizar bom desmafagafizador será. Venho, em linha reta, de espanhóis e italianos. Dos espanhóis, herdei a natural tentação do bravado, que já me levou a procurar colorir a vida com outras cores: céu feito de conchas de metal roxo e abóbora, mar todo vermelho, e mulheres azuis, verdes, ciclames. Dos italianos que, tradicionalmente, dão para engraxates ou artistas, eu consegui conciliar as duas qualidades, emprestando um brilho novo ao humor nativo. Posso dizer que todo o país já riu de mim, embora poucos tenham rido do que é meu. Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. Não creio em Deus, mas sei que Ele crê em mim. Creio que a Terra é chata. Procuro, em vão, não sê-lo. Creio que as paralelas se encontram nos paralelepípedos.

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