Trecho

Invejo (é modo de dizer) todo aquele que tem tempo de preparar algo assim como um livro e, depois de concluí-lo, ainda consegue interessar-se pela sorte dessa coisa ou pela sorte que afinal de contas essa coisa lhe traz. Não venham me dizer que, durante a sua elaboração, não se apresentou pelo menos uma verdadeira oportunidade de renunciar a ele! O autor conseguiu ultrapassá-la, e poderíamos esperar que nos desse a honra de dizer por quê. Pelo que eu possa ter sido tentado a empreender, algo de grande fôlego, estou seguro demais de desmerecer a vida tal como a amo e ela se oferecer: vida de perder o fôlego. Os súbitos espaçamentos das palavras numa frase, mesma impressa, o traço que se risca ao falar por baixo de certo número de proposições de que não seria o caso fazer a soma, a elisão completa dos acontecimentos que, de um dia para o outro, ou a algum outro, transtornam de cima para baixo os dados de um problema cuja solução imaginávamos poder esperar, o indeterminável coeficiente afetivo de que se carregam e descarregam ao longo do tempo as idéias mais longínquas que já sonhamos emitir, bem como as lembranças mais concretas, fazem com que só tenha coragem de me debruçar sobre o intervalo que separa estas últimas linhas daquelas que, folheando o livro, pareciam acabar duas páginas antes. Intervalo muito curto, negligenciável para o leitor apressado e mesmo para outros, mas, é preciso dizê-lo, desmesurado e de preço incalculável para mim. Como poderia me fazer entender? Se relesse esta história (...) o que eu deixaria sobrar? Não faço questão de saber. (...)

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