Trecho

No balcão do botequim, você pode caçoar, brindar com quem quiser, com qualquer um. Mas o Anjo se faz anunciar, fique a sós para recebê-lo. O Anjo, para nós, é a noite que cai sobre o picadeiro deslumbrante. Que tua solidão, paradoxalmente, aconteça em plena luz e que a obscuridade, composta de milhões de olhos que te julgam, temem e esperam tua queda, tanto faz: você dançará sobre e dentro de uma solidão desértica, os olhos vendados, se você conseguir, as pálpebras pregadas. Mas nada - muito menos os aplausos ou os risos - impedirá que você dance para a sua imagem. Você é um artista - infelizmente - você não pode mais se recusar ao precipício monstruoso de teus olhos. Narciso dança? Mas não se trata de coqueteria, egoísmo ou amor próprio. E se fosse a própria morte? Dance, portanto, sozinho. Pálido, lívido, ansioso para agradar ou desagradar à sua própria imagem: ora, é a sua imagem que vai dançar para você. Se teu amor, com tua destreza e tua astúcia, são grandes o suficiente para descobrirem as secretas possibilidades do arame, se a precisão de teus gestos é perfeita, ele se precipitará ao encontro de teu pé (coberto de couro): se não é você quem vai dançar, é o cabo de aço. Mas se é ele que dança imóvel, e se é a tua imagem o que ele faz saltar, onde estará você afinal?A morte - a morte sobre a qual te falo - não é aquela que se seguirá à tua queda, mas aquela que precede a tua aparição sobre o cabo de aço. É antes de escalá-lo que você morre. Aquele que vai dançar estará morto - decidido a todas as belezas, capaz de todas elas. Quando você aparecer, uma palidez - não, não estou falando do medo, mas do seu contrário, de uma audácia invencível - uma palidez vai recobrir você. Apesar da maquiagem e das lantejoulas, você estará pálido, sua alma lívida.

Entrevista com

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