Trecho

Do bosque de bétulas, que fica ao lado da estrada, de repente ouve-se uma batida ruidosa, estranha e monótona, que ressoa longínqua na quietude da noite que se inicia.Andrei caminha ao encontro dessa batida inexplicável, deixando a estrada para entrar no bosque. Ele passa devagar por entre os troncos brancos. A batida está cada vez mais próxima, cada vez mais alarmante. Finalmente, Andrei dá numa clareira e se detém, abismado.Ele vê o mestre dos artífices com a cavidade ocular vazia, ensangüentada. Em pé junto a uma bétula, ele bate nela com um pau, de forma insistente e peremptória. Acompanhados por aquelas batidas e por gemidos, perambulam por todos os lados, de braços estendidos, seus camaradas. Todos eles possuem, em vez de olhos, feridas pretas, e seus camisões brancos, rasgados, estão empapados de sangue. De árvore em árvore, ao som da batida do mestre, andam, tropeçando, os artífices cegados.Petrificado, Andrei permanece de pé e olha, aterrorizado, como um jovem gago estende os braços e dá de encontro com uma bétula, resmunga algo e cambaleia adiante, rumo ao chamado do mestre e atrás dos demais artífices, unidos pelo sofrimento e pelo infortúnio irremediável que caía sobre eles.Eles batem uns contra os outros num círculo apertado, gritam algo sem nexo, agarram-se mutuamente, tentando se certificar de que todos estão ali. Depois, chamam insistentemente Serguei, que não responde. Então os artífices se organizam em uma longa corrente, o mestre é mantido à frente e, segurando-se uns nos outros, começam a andar cautelosamente atrás dele, que abre caminho com um pau e os guia pelo bosque...

, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

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