Transporte de cenografia provoca tensão constante

É um dos principais problemas para o intercâmbio teatral

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2009 | 00h00

Nas artes cênicas, o intercâmbio cultural entre países do Mercosul pode ser frágil em quase todo o Brasil, mas é bem mais intenso nos festivais de teatro de Estados do Sul do Brasil. Entre os responsáveis por promover essa troca cultural destacam-se dois nomes, Nitis Jacon, que durante mais de 30 anos esteve na direção do Festival de Londrina, atualmente substituída por Luis Bertipaglia, que segue a mesma linha. E o gaúcho Luciano Alabarse, diretor do Porto Alegre em Cena, cuja programação invariavelmente traz o melhor do teatro argentino, uruguaio e chileno, entre outros países vizinhos."Nosso intercâmbio cultural com os países sul-americanos é relação consolidada, fizemos o nosso próprio Mercosul", diz Alabarse. E ampliado. "Acho que existem mecanismos facilitadores oficiais, mas o uso é raro." Um dos problemas que tiram o sono dos diretores de festivais é o transporte de cenário, tratado como carga comum pelo sistema alfandegário. "Acho que já existem regras especiais de liberação, mas não as usamos porque fazemos a cenografia no Brasil", diz Alabarse. "Por incrível que pareça, sai mais barato recriar aqui em Porto Alegre, produzir novamente, do que trazer de fora."Luis Bertipaglia, atual diretor do Filo, já viveu o problema de ter um espetáculo chileno da programação, Gemelos, cancelado por conta da retenção da carga na alfândega. "Até onde eu sei, não há mecanismos que facilitem o intercâmbio com os países latino-americanos", diz Bertipaglia. Ele também prefere construir a cenografia dos espetáculos. "Se for simples, não houver um mecanismo desses criados para efeitos especiais, nós fazemos aqui. Trabalhamos há anos com isso, temos experiência, fica mais fácil."Se já é difícil para quem está próximo à fronteira, a dificuldade aumenta nos festivais mais distantes, como o Cena Contemporânea que ocorre em setembro, em Brasília. "Desconheço a existência de qualquer mecanismo de apoio ao intercâmbio teatral entre países do Mercosul", diz Guilherme Reis, diretor do Festival Internacional de Teatro de Brasília. "Eu adoraria que a luta pela diferenciação de tratamento da carga cenográfica fosse encampada pelo poder público, como já foi pedido."A chegada de cenários recebe tratamento de importação de produto. "As taxas são as mesmas, passamos pelos mesmos trâmites legais de liberação", diz Bertipaglia. "Felizmente, ainda não tive um espetáculo cancelado, mas a tensão é inevitável, é sempre a mesma coisa, é preciso ir lá, pedir, dar mil telefonemas", diz Reis. "Muitos dos meus cabelos grisalhos eu ganhei por conta disso", afirma.

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