Hans Gunter Flieg / Instituto Moreira Salles
Hans Gunter Flieg / Instituto Moreira Salles

Trajetória da Bienal de São Paulo é revista em novo livro

Livro mostra como a Bienal inseriu o Brasil no circuito internacional das artes; Picasso, Magritte e Giacometti vieram na primeira edição

Kátia Mello, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 05h00

O livro Bienal de São Paulo Desde 1951, a ser lançado nesta quinta-feira, 31, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, vai além dos 70 anos comemorativos de um dos mais importantes eventos artísticos do mundo e de sua fundação, que completa 60 anos. 

A publicação, organizada por Paulo Miyada, curador adjunto da 34.ª edição (2020-2021), mostra como a Bienal inseriu o Brasil no circuito internacional das artes, em momento em que o País realizava sua maior transformação industrial. 

Já em sua primeira edição, a Bienal paulista mostrou seu gigantismo ao trazer ao Brasil, pela primeira vez, obras de artistas internacionais reverenciados como Pablo Picasso, René Magritte, Alberto Giacometti, além de impulsionar a produção nacional de Lasar Segall, Victor Brecheret, Oswaldo Goeldi, entre outros.,

O mentor do evento, Ciccillo Matarazzo, era sobrinho do industrial Francisco Matarazzo, dono de uma das maiores fortunas do País no virar do século 19 para o 20. Inspirado na Bienal de Veneza, Ciccillo tinha a pretensão de transformar São Paulo em um dos polos centrais da cultura no mundo. Eram os tempos dos grandes mecenas das artes e, neste sentido, Ciccillo fazia par com o jornalista Assis Chateaubriand

No final da década de 1940, São Paulo vivia uma verdadeira ebulição arquitetônica na esfera artística com o surgimento do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – Masp (1947), Teatro Brasileiro de Comédia – TBC (1948), Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP (1949) e Companhia Cinematográfica Vera Cruz (1949).

Em sete décadas, a Bienal de São Paulo teve diferentes momentos históricos e essa ausência de linearidade é constatada no livro que reúne 30 ensaios e mais de 200 imagens, distribuídos em 424 páginas. “A ideia do livro foi abrir mão de uma linha contínua que coubesse numa mesma narrativa, em um mesmo tom de voz. Toda a premissa desse livro foi mergulhar em momento dessa linha e convidar pessoas com pesquisas e dicções desses momentos”, explica ao  Estadão o organizador Paulo Miyada. 

No capítulo Avenida Paulista, 1951, escrito pelos arquitetos Abilio Guerra e Fausto Sombra, é relatado esse ambiente de transformação da principal veia urbanística da cidade que receberia guindastes e tratores com a construção de dezenas de edifícios modernos, como o Nações Unidas (1952-1959), o Três Marias (1952-1956) e o Conjunto Nacional (1955-1962), para citar algumas das edificações levantadas à época. 

É nesse ambiente de efervescência das artes na capital paulista que acontece a inauguração, no dia 20 de outubro de 1951, às 16h, da 1.ª Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, instalada no edifício reconstruído do Trianon, local hoje ocupado pelo Masp, na Avenida Paulista.

A dupla de autores Guerra e Sombra descreve o frenesi da inauguração: “Não é todo dia que uma cidade latino-americana recepciona mais de 500 artistas e 1.800 obras de arte de 21 países. Comparada à Bienal de Veneza, seu modelo explícito, a versão paulistana é ambiciosa ao contemplar exposições de artes plásticas e arquitetura, festival cinematográfico e concursos de composição musical e de cartazes”. Mais adiante, os arquitetos ressaltam o calor do momento, com “a aglomeração em torno do casal Yolanda Penteado e Francisco Matarazzo Sobrinho (Ciccillo), radiantes, no papel de anfitriões”.

O capítulo Sobre uma Fotografia, escrito por Francisco Alambert, analisa a segunda edição da Bienal, ocorrida em dezembro de 1953, no Parque do Ibirapuera, recém-inaugurado por ocasião das comemorações do 4.º Centenário da cidade de São Paulo, e cujo projeto é assinado por Oscar Niemeyer e Burle Marx

O grande chamariz desta edição foi o quadro Guernica, de Picasso, tanto é que a exposição ficou conhecida como a Bienal Guernica. A obra de Picasso aportou por aqui graças a uma longa negociação entre o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e Yolanda Penteado, mulher de Ciccillo Matarazzo e que teve papel de destaque nas artes, ao lado do marido. 

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