Traição (enfim)

5h55. Ela sempre acordava antes. 6h31. Entrou no e-mail secreto que só ela sabia da existência. Ela e um cara que mora fora. Surpresa. Ele enviou: ''''Hoje, 19h?'''' Está na cidade. Invento um curso à noite. Respondeu: ''''OK, Bj.'''' Olhou para o lado. O marido sorria, encostado à porta:''''O que está fazendo?''''''''Nada.''''6h43. Ficou um tempo imóvel debaixo do chuveiro. 7h05. Vestiu-se. Olhou-se no espelho, virou-se para um lado, para o outro. O que você está fazendo, vestindo-se para ele? 7h10. Acordou o filho abraçando-o como quem quer esmagá-lo. ''''Vai, filhão, papai já está te esperando.''''7h23. Ligou o rádio do carro, saiu para a rua e cantou junto: ''''Meu caminho é cada manhã, não procure saber onde estou, meu destino não é de ninguém, e eu não deixo os meus passos no chão...''''8h14. No escritório, releu: ''''Hoje, 19h?'''' Nem o endereço. Porque ele sempre se hospedava no mesmo lugar. Desistiu. Não vai rolar. Petulante. Nem um beijo. Não vou! A adrenalina comandava o seu dia, sofrimento e expectativa, a ansiedade: a idéia de ir ou não ir, o único pensamento. Levaria o dia como se fosse. Na última hora, decidiria. Era isso que atraía?10h13. Ligou para a Casa do Saber. Inscreveu-se num curso de ciência.10h44. Recebeu um telefonema do marido.''''Vem para jantar?''''''''Não. Como por aqui mesmo.''''''''Tá, se eu estiver dormindo, quando você chegar, não se esqueça de uma coisa.''''''''Do quê?''''''''De que eu te amo.''''12h00. Desceu para o almoço. Encontrou casualmente o irmão gêmeo do marido. Foram juntos ao italiano da esquina. 12h22. Brindaram. Então, ele passou a falar de como invejava a vida previsível do casal, que ele preferia ser o irmão a sofrer tudo o que sofre com as suas indecisões e a ilusão de que há algo melhor atrás da vida planejada. E perguntou se ela tem vontade de trair.''''Eu? Ah... Sei lá. Trabalho tanto.''''13h07. Despediram-se na calçada. Ela acendeu um cigarro e esperou ele entrar no prédio de escritórios da esquina.13h09. Na farmácia, comprou uma paçoca natural, uma Coca e um envelope com três unidades de camisinhas lubrificadas testadas uma a uma eletronicamente, transparentes, com látex e reservatório, que mantêm a sensibilidade natural.13h21. Sentou-se no banco em frente para tomar a Coca e fumar outro cigarro. Ao lado, outros fumantes aproveitavam os últimos minutos da pausa do almoço, antes de voltarem ao maldito edifício em que é proibido fumar. Três advogados fumavam e falavam com ela, que mal prestava atenção. Gracejos. Cantadas inocentes. Tipo: ''''Ela nunca sairia para beber com a gente, porque não merecemos a sua companhia...'''' ''''É ocupada demais.'''' ''''No que tanto pensa?'''' ''''Aposto que é corintiana.'''' Aqueles três sempre a cantavam. Advogados do andar de cima. E quer apostar? Os três são casados com garotas lindas, bem vestidas, submissas. Submissas? Que mania de julgar sem conhecer. Preconceito, sabia? Ela se perguntou por que a maioria dos homens beija a esposa, sai de casa e canta mulheres na calçada, no trânsito, no metrô, no trabalho, na pausa do almoço, é um costume tribal? Auto-afirmação do macho alfa. Riu. Qual daqueles três advogadozinhos recém-formados, recém-casados, seria o macho alfa?13h29. E se eu for embora agora, entrar correndo naquele táxi, mandá-lo seguir pela Imigrantes, descer a serra até a praia, tirar a roupa, entrar no mar e sair nadando? Adorava pensar em atitudes intempestivas. Ela já foi tão louca anos atrás. A mais maluca. Quantas vezes não foi para a praia e voltou no mesmo dia, matando aula, estágio, trabalho? Saudades de ser volúvel! Saudades da vida.13h30. Sempre há algo melhor atrás do planejado? Despediu-se dos galanteadores com sorriso, apagou o cigarro, jogou fora a paçoca e a lata no lixo reciclado e subiu.Trabalhou sem parar. Desde o almoço. Quase como um surto, não viu a hora passar, planilhas e relatórios, várias janelas abertas no seu monitor, nem leu os e-mails, nem atendeu o telefone, nem tomou café. Até o celular no vibracall chamar a sua atenção às 17h20. Era do salão. Reservara o horário das 17h. Cortar as pontas. Esquecera-se completamente. Pediu mil desculpas. Consegue chegar em 40 minutos, dá?17h22. Salvou os seus arquivos, um por um, fechou as janelas. Desligou o computador. Olhou ao redor. Apesar de o escritório estar apinhado, em horário de pico, ela nunca se sentiu tão só. São seus amigos. Seus colegas. Trabalham ''''na casa'''', como chamam a empresa, com sinergia e transparência. Mas, no fundo, são apenas colegas. Ninguém teria tempo para escutar o dilema que queima o seu estômago desde quando acordou. Nem os três advogados do andar de cima.17h24. Pegou um café num copo descartável da máquina e saiu à francesa.18h03. Sentada diante do espelho, coberta por um pano preto, com o logo do salão impresso no peito, olhou para Jonas, o seu cabeleireiro, e teve vontade de chorar. Ele transmitia confiança. Desde a adolescência, fazia o seu cabelo. Fez na sua formatura e no seu casamento. Mas Jonas e todos pareciam ocupados. Corriam. ''''Só as pontas, amor.'''' E sorriu sem graça.18h41. Parou no estacionamento credenciado da Rua Mário Ferraz. Olhou o aviso: 24 HORAS. Guardou o recibo.18h45. Pagou o curso da Casa do Saber. Pegou o recibo e a apostila. Circulou pelas estantes. Folheou um livro sem reparar no nome ou capa ou autor.18h50. Comeu um pão de queijo com um cappuccino pequeno, no café da livraria. Acendeu o cigarro e olhou o relógio de parede avançar. 18h52. Tragou e não pensou em nada. 18h53. Bebericou. Tragou. 18h54. Tragou. 18h55. Não fez nada. 18h56. Tragou. 18h57. Não fez nada. 18h58. Bebeu, tragou e apagou o cigarro. Fechou os olhos, respirou uma, duas, três... Levantou-se às 19h em ponto.19h01. Entrou num táxi. Retocou a maquiagem e meteu na boca uma balinha de hortelã. Sorriu. ''''Pode aumentar o rádio?'''', pediu ao motorista. Começou a cantar junto, baixinho: ''''Eu só queria te contar, que eu fui lá fora e vi dois sóis num dia e a vida que ardia sem explicação. Explicação. Não tem explicação. Explicação. Sem explicação...'''' Ficou tão emocionada. Triste. O pôr-do-sol da primavera é vermelho. Cássia Eller morreu. O Ibirapuera está tão colorido.19h16. Bateu na porta do flat. Ele atendeu, sorriu. Ela entrou. Ele olhou para o corredor, para um lado, para o outro, e fechou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.