Traição - 4

5h55. Ela acordou antes do marido. 6h31. Entrou no e-mail secreto que só ela sabe da existência. Ela e um cara que mora fora e vem eventualmente. Ele enviou: ''''Hoje, 19 h?'''' Ela pensou: invento um curso à noite e vou direto do trabalho. ''''OK. Bj.''''7h23. Ligou o rádio do carro. Abriu o portão da garagem, saiu para a rua e cantou junto: ''''Meu caminho é cada manhã, não procure saber onde estou, meu destino não é de ninguém, e eu não deixo os meus passos no chão...''''8h21. No escritório, buscou no site da Casa do Saber os cursos daquela noite. Você está doida, é? 8h46. Foi pegar outro café.9h00. Correu para a reunião. Perguntou-se se deveria ou não encontrar o cara. Por que daquilo? A adrenalina comandava a manhã, sombreada por uma conjunção de sofrimento e expectativa. Levaria o dia como se fosse ao encontro. Na última hora, decidiria. Era isso que atraía?10h13. Ligou e se inscreveu num curso de ciência, Em Busca da Partícula de Deus, de Maria Cristina Batoni Abdalla.10h44. Recebeu um telefonema do marido. Confirmou que iria ter um curso à noite. Leu para ele: ''''Os resultados das experiências ajudarão a desvendar a constituição íntima da matéria, o que pode mudar a compreensão sobre o funcionamento do Universo e atestar a existência da última partícula, chamada de a partícula de Deus. Não é lindo?''''''''Se eu estiver dormindo, quando você chegar, não se esqueça de uma coisa. De que eu te amo.''''Ela não conseguiu mais trabalhar.12h00. Desceu para o almoço. Cruzou a rua, entrou na farmácia. Fez compras. No caixa, examinou a prateleira ao lado. Lubrificado, não lubrificado, extra, com espermicida? Colocou na cesta um envelope com três unidades do lubrificado transparente, com látex e reservatório. Colocou a cesta e seu cartão eletrônico no balcão. Examinou outro envelope com três unidades.''''Que coincidência'''', disse o cunhado, irmão gêmeo do marido, que também trabalha na área. Não podia lhe dar a mão, pois segurava a embalagem com três preservativos lubrificado testados um a um eletronicamente, que mantêm a sensibilidade natural.''''O que você está fazendo?''''''''Nada'''', ela disse e devolveu o envelope para a prateleira.''''Nada?'''', ele estranhou e olhou para a cesta no balcão com compras e preservativos.''''Crédito ou débito?'''', perguntou a caixa.''''É da minha amiga. Ué, aonde ela se meteu?''''E saiu pela farmácia, procurando a amiga.''''Neide? Neide?''''Correu pelos corredores, gôndolas, Dipirona Sódica, cestinhas, cremes, pastas, escovas de dente, alicates de unha, Advil, vitaminas. Derrubou uma pilha de esparadrapos e microporos, agachou-se para pegá-los, respirou fundo. Tonta. Permaneceu por instantes escondida, selecionando os impermeáveis. Recolocou os esparadrapos na estante, levantou-se. Seu cunhado apareceu.''''Tudo bem?''''''''Minha amiga sumiu.''''''''Sumiu? E agora?''''''''O que você está fazendo aqui?''''''''Estou no meu horário de almoço.''''''''Eu também.''''''''Vamos almoçar juntos?'''', ele convidou.''''Tem a minha amiga.''''''''Ela sumiu. Vamos. Só nós dois. Nunca ficamos a sós. A gente fala mal da família toda.''''Ela riu. Gostava dele. Muitas vezes, ela perguntou de brincadeira se ele não era o gêmeo com quem deveria ter se casado. Era bem mais bonito do que o marido. Mais culto. Divertido. Gostava das coisas boas da vida. Jantar fora. Viajar. Touro, como o marido. Mas tão diferente. Porém, um pequeno detalhe encerrava o projeto platônico: ele era gay.''''Claro. Vamos almoçar. Tem um natural aqui...''''''''Pra beber alface batido com agrião?'''', ele interrompeu e fez uma divertida cara de nojo. ''''Vamos naquele italiano da esquina. E tomamos um vinho.''''''''Boa. Vamos lá então.''''''''Toma. O seu cartão eletrônico. Você esqueceu no balcão.''''12h22. Brindaram duas taças de um rose gelado. Ele era gentil. Explicou que o rose perdeu o estigma e se tornava uma opção. Escolheu as entradas. Então, confessou algo. Estranho, pois nunca tinham trocado intimidades. Que ele estava apaixonado. Que encontrou um cara para casar. Um arquiteto lindo, carioca. Que é o homem da vida dele. Mas entrou num mar com correntes traiçoeiras. Que, apesar de estar amando, não conseguia deixar de paquerar outros caras. Que ficou muitos anos solteiro, na galinhagem, tem muitos rolos, paqueras, ex-casos, ex-namorados, médico, dois psicólogos, policiais militares, um vereador de direita, um jogador da Série A, que, como faria agora, eliminaria todo esse círculo vicioso, para se dedicar a um cara só?12h31. Chegou a comida. Penne ao pesto, para ele, com camarão e legumes, para ela. Continuou. Que curtia a galinhagem, mas um homem daquele exigia o compromisso com a fidelidade, e o que é trair, afinal? Tinha medo de sentir falta da liberdade. Tinha medo de amar aquele homem e ser abandonado. Tinha medo de morrer só. De ficar velho, gordo, careca, com nariz e orelhas grandes e só. Então, passou a falar do irmão gêmeo, de como invejava a vida planejada do irmão, que sabe quanto vai ganhar daqui a cinco anos, da dedicação com o filho e a mulher, de parecer não ter conflitos nauseantes, dilemas sem solução. Que preferia ser o irmão a sofrer tudo o que ele sofre com as suas indecisões e a ilusão de que há algo melhor atrás do planejado. E perguntou se ela tem vontade de trair.''''Eu? Ah... Sei lá. Trabalho tanto.''''''''Claro que, às vezes, você sente atração por outro cara.''''''''Normal.''''''''Que tipo de cara?''''''''Um bem diferente.''''Riram.''''Vocês são fiéis um ao outro? Está na cara.''''''''Você acha?''''''''Não existe casal tão apaixonado. O casal perfeito.''''''''Não existe casal perfeito.''''''''É. Ninguém é fiel'''', ele disse e riu, olhando com seu olhar penetrante, que atordoa e seduz até porteiro de boate.''''Ele não é fiel?''''''''Meu irmão? Olha, eu até te diria, se soubesse. Mas aquele lá é um mistério...''''Racharam uma torta de maçã com sorvete de canela e falaram mal da família. Ele tomou um curto, ela, um carioca. Ele pagou a conta. Gentleman.''''Vamos marcar mais vezes. Adorei conversar com você'''', ela disse, segurando as mãos delicadas e bem cuidadas dele. ''''Quero conhecer o homem da sua vida.''''''''Deixa pra lá. É o homem da minha vida hoje. Não sei se será amanhã.''''13h07. Despediram-se na calçada. Ela acendeu um cigarro e esperou ele entrar no prédio de escritório da esquina. Então, voltou para a farmácia.

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