Traição 3

5h55. Ela acordou antes do marido. 6h16. Sentou-se no sofá com o café da manhã e o jornal. 6h31. Entrou no e-mail secreto que só ela sabia da existência. Ela e um cara que morava fora e vinha a cada quatro meses. Sim, ele enviou um. ''''Hoje, 19 h?'''' Hoje? Dá. Invento um curso à noite e vou direto do trabalho. Respondeu:''''OK. Bj.'''' Ao lado, o marido sorria:''''O que está fazendo?''''''''Nada.''''Ela desligou o computador. Ficou aflita. Pois não sabia se desligou antes ou depois de enviar o ''''OK. Bj.''''7h05. Vestiu-se no quarto. Parou de repente. O que você está fazendo, está se vestindo para ele?!7h10. Ela acordou o filho abraçando-o como querendo esmagá-lo. Ele reclamou do abraço.''''Vai, filhão, papai já está te esperando.''''8h14. Ela chegou ao escritório. Checou no seu e-mail secreto. ''''Hoje, 19 h?'''' Só estava escrito isso. Nenhuma saudação. Nem o endereço. Porque ele sempre se hospedava no mesmo lugar. ''''OK.'''' Ela digitou. Ele receberia duas respostas com dois textos diferentes. Desistiu. Não vai rolar. Petulante. ''''Hoje, 19?'''' Nem um beijo ou um ''''olá como vai''''? Além do mais... Foi pegar um café.8h21. Voltou para a mesa. Buscou no site da Casa do Saber os cursos daquela noite. Filosofia, psicologia, cinema, teatro, religião, temas contemporâneos. Fixou o ponteiro do mouse no ícone do curso A Paixão e o Crime - De Euclides Da Cunha a Pimenta Neves. Palestrante: Luiza Nagib Eluf. ''''Estudo de casos de crimes passionais célebres, que ocorreram no Brasil a partir de Euclides da Cunha até Pimenta Neves, sob a ótica social e de gênero.'''' Não, não, não. Nada disso. Você está doida, né?8h46. Foi pegar outro café. Imaginou como o marido a mataria, com uma arma ou uma faca? Aquele lá não mata nem uma mosca. Passivo demais. E como ela o mataria? Não, ela não o mataria, mas sim a outra, se houvesse. Ela estava uma pilha. Devia é fazer um curso de psicanálise.8h55. Voltou para o computador. Notou o curso Freud e a Sexualidade, de Mario Costa Pereira. Agora, sim. Clicou no ícone. Checou datas. Teria que ligar para se inscrever. Sim, se era para ser tudo perfeito, teria até de se inscrever de verdade. Quem sabe até assistir a alguns minutinhos do curso. Mas sair logo depois de iniciada a palestra. Costa Pereira ficaria chocado com aquela mulher audaciosa ir embora no começo de uma exposição sobre Freud, para encontrar um amante de fora que vem a cada quatro meses. Interna, decretaria. Nossa, se internassem todas as mulheres que têm um caso eventual...9 h. Correu para a reunião. Prestou atenção? Em nada. Caso eventual. Que horrível expressão, pensou. É um caso eventual, mas não é. Perguntou-se se deveria ou não o encontrar. Por que fazia aquilo, a adrenalina comandava o seu dia, havia uma mescla de sofrimento e expectativa, a ansiedade se moldava com os ponteiros do relógio, minuto a minuto, a idéia de ir ou não ir era seu único pensamento. Levaria o dia como se fosse ao encontro. Na última hora, decidiria. Era isso que atraía?10h13. Ligou para a Casa do Saber. Inscreveu-se num curso de ciência, de dois encontros: LHC - Em Busca da Partícula de Deus. De Maria Cristina Batoni Abdalla.10h44. Recebeu um telefonema do marido. Confirmou que iria ter um curso à noite sobre o LHC, Large Hadron Collider, o acelerador de partículas construído na fronteira da França com a Suíça. O marido perguntou desde quanto ela se interessava por Física. Ela contou que o funcionamento do LHC propiciará uma quantidade imensa de novas tecnologias, da internet às de imagem usadas na medicina, como terapias de combate ao câncer. Foi o que ela leu no site.''''Os resultados das experiências ajudarão a desvendar a constituição íntima da matéria, o que pode mudar a compreensão sobre o funcionamento do Universo e atestar a existência da última partícula elementar cuja existência ainda precisa ser comprovada, a ''''bóson de higgs'''', que exerce papel-chave na explicação das origens da massa de outras partículas, a ponto de ser chamada de ''''a partícula de Deus''''. Sim, vão ter trechos de filmes.''''''''A partícula de Deus?''''''''Não é lindo?''''''''Você vem para jantar?''''''''Não. Como por aqui mesmo.''''''''Tá, se eu estiver dormindo, quando você chegar, não se esqueça de uma coisa.''''''''Do quê?''''''''De que eu te amo.''''''''Ai, amor... Eu também. Beijos.''''Desligou. Não conseguiu trabalhar. Passeou com o mouse pela tela.11h55. Respondeu o e-mail: ''''OK. Bj.'''' Ligou para o salão. Reservou um horário para as 17 h. Cortar as pontas. Só. Sem depilação, unhas, nada.12 h. Desceu para o almoço. Mas antes de entrar no natural em que vai todos os dias, cruzou a rua, entrou na farmácia. Pegou uma cestinha. Percorreu as gôndolas. Pegou escova de dente para o filho, fio dental para toda a família, Buscopan para ela, Sinvastatina para abaixar o colesterol do marido, que sempre esquece de tomar. Cheirou um creme hidratante novo.12h19. Foi para a fila do caixa. Na sua vez, olhou bem ao redor. Ninguém conhecido. Examinou a prateleira ao lado. Lubrificada, não lubrificada, extra, com espermicida? Large. Action. Sensitive. Lite. Riu. Por que usam termos em inglês, para descrever as qualidades dos preservativos? Colocou na cesta o lubrificado testado um a um eletronicamente, que mantém a sensibilidade natural, transparente, com látex e reservatório. Um envelope com três unidades. Colocou a cesta no balcão. Deixou ao lado o seu cartão eletrônico.Pegou uma bala de mel. E decidiu pegar outro envelope de três unidades. É melhor garantir. Nunca se sabe. Uma mão encostou no seu ombro.''''Que coincidência.''''A voz familiar do seu cunhado, irmão gêmeo do marido, que também trabalha na área. Não podia lhe dar a mão, pois segurava a embalagem de três preservativos lubrificados testados um a um eletronicamente, que mantêm a sensibilidade natural, com látex e reservatório.''''O que você está comprando?''''''''Nada'''', ela disse e devolveu o envelope para a prateleira.''''Nada?'''', ele estranhou e olhou para a cesta no balcão com escova, fio dental, remédios e preservativos.''''Crédito ou débito?'''', perguntou a caixa.''''É da minha amiga. Ué, aonde ela se meteu?''''

Marcelo Rubens Paiva, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2001 | 00h00

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