Tradição política do Arena renovada

Com sede ao lado do histórico espaço, a Cia. do Feijão retrata o poder com humor satírico e amargo em Veleidades Tropicaes

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

04 de agosto de 2009 | 00h00

Com a estreia na sexta de Veleidades Tropicaes, a Cia. do Feijão faz jus à sua localização de seu teatro - ao lado do Arena de Boal, Vianinha e Guarnieri - e retoma o fio de uma meada brutalmente cortada -, o teatro político por excelência, que trata diretamente das relações de poder e como elas afetam a vida dos homens aqui e agora. A julgar pelo ensaio acompanhado pelo Estado, vem aí um grande espetáculo, satírico, alegórico, a um só tempo divertido e dolorido, sobre o comportamento dos que detêm o poder no País.As três bruxas que tentam Macbeth lá estão, tropicalizadas, incitando com a promessa de mais poder a quem já tem numa encenação que perfaz três grandes ciclos. No primeiro, Brasília surge como sugestão de cenário e veem-se as lavagens de dinheiro, as relações do judiciário com o poder financeiro, o papel por vezes duvidoso da imprensa. O segundo ciclo, mais uma vez marcado pelas bruxas, é metropolitano, entram os carros blindados, o orgulho de finalmente usufruir um produto cultural de alta sofisticação, num entorno degradado, que o poder público promete higienizar em breve.Em seguida, viaja-se ao Brasil profundo, dos proprietários de terra e seus representantes no Poder Legislativo. Não faltam as figuras dos sindicalistas e dos fundadores de ONGs. Ao fim, voltam as bruxas para instalar o Império do Meu, onde quem pode mais tem mais.Na direção e dramaturgia mais uma vez estão Pedro Pires e Zernesto Pessoa, fundadores dessa companhia que já criou montagens de excepcional qualidade, como Mire Veja. Difícil na comédia política é sempre saltar do primeiro nível da paródia de figuras públicas reconhecíveis e da constatação do que já se sabe. "Por isso, a presença das bruxas de Macbeth, por exemplo, entre outras referências teóricas e ficcionais, como Machado de Assis, Thomas Hobbes, Clarice Lispector, Henry Thoreau. Tentamos uma análise histórica, de formação, comportamental no sentido mais profundo, de compreensão do poder e das forças que mobiliza", diz Pedro Pires.O termo veleidade do título chama atenção. "Machado tem um conto que fala sobre essa ?volubilidade? do desejo numa personagem chamada Dona Benedita, que muda de interesses a toda hora, muda até de amigo como muda de roupa. A vontade de poder é natural no ser humano. Mas um desejo forte e importante obriga a abrir mão de outros, move projetos. Veleidoso é o desejo de poder pelo poder, pura vaidade, que no político faz ignorar a coisa pública, degrada a ?República?.A ?veleidade? sutilmente perpassa todas as cenas estruturadas em quadros ágeis e, por incrível que pareça, divertidos, apesar do travo amargo. Revezando-se em muitos papéis, os atores Antonio Vanfill, Fausto Franco, Fernanda Haucke, Fernanda Rapisarda, Flávio Pires, Guto Togniazzolo, Livia Guerra e Petronio Nascimento.Têm papel importante e fecham cada ciclo os irmãos Pedro e Paulo, que disputam uma degradada República. "A inspiração vem do romance Isaú e Jacó, de Machado de Assis, sobre gêmeos, ricos, de boa família, um monarquista, outro republicano." As diferenças entre Pedro e Paulo, ricos e em oposição, são no fundo irrelevantes, duas faces da mesma moeda.O espetáculo é cheio de referências - só de Shakespeare há Hamlet, Macbeth, A Tempestade. "Ele escreve numa sociedade que começa a ser ?iluminada? e critica a barbárie na disputa pelo poder. No Iluminismo, e depois, muitos refletiram sobre o homem, a sociedade e o poder. Na Europa, a ideia de República chegou a concretizar-se e a interrupção das duas guerras reforçou sua importância. No Brasil, tentou-se instaurar o modelo que baniria a retrógrada elite feudal, mas o golpe de 64 derrotou tal projeto." A queda do bloco comunista e a ideia de que o mercado regula tudo - a crise finaceira como efeito - degradaram ainda mais o quadro. "Pior é a nossa desistência. Não precisa ser assim, temos de buscar soluções. Pensar sempre fez o homem avançar."

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