Tradição e vanguarda que dedilham a viola brasileira

Grandes nomes do gênero, como Passoca, Renato Teixeira, Almir Sater e Matuto Moderno, reúnem-se no Auditório Ibirapuera

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

28 de setembro de 2007 | 00h00

Em 1986, o radialista Moraes Sarmento, quem apresentava o programa Viola, Minha Viola na RTC (Rádio e Televisão Cultura), ao lado de Inezita Barroso, já denunciava a mercantilização da música sertaneja. ''''O que se vê por aí hoje é ''''sertanojo'''', músicas cantadas em duo com letras que só falam de cama e sexo. Essa transformação é puro mercantilismo. E quem firmar pé de não querer gravar esse tipo de música, dificilmente conseguirá fazer um disco. Isso é fruto do imediatismo, coisas para consumo rápido.'''' De fato, músicos que insistem em buscar a simplicidade da vida e do homem do campo e traduzi-la em modas de viola, entre uma e outra contação de ''''causos'''' de bicho ou de mulher, quase não têm espaço na mídia massiva. E lutam arduamente para a preservação da música caipira, aí sem nenhum sentido pejorativo.Graças ao entendimento da importância do gênero, o produtor musical do Auditório Ibirapuera, Pena Schmidt, não hesitou ao ouvir a idéia do compositor e violeiro Passoca: reunir a nata da viola brasileira em um dos espaços mais nobres da capital e dar a chance ao público paulista de conhecer a sua própria história musical. De hoje a domingo, músicos da velha e nova guarda vão apresentar um saboroso repertório no projeto intitulado Viola Bem Temperada. Além de Passoca, sobem ao palco Roberto Corrêa, a banda Matuto Moderno, Paulo Freire, Índio Cachoeira e o grupo de dança Os Favoritos da Catira, de Guarulhos. O pantaneiro Almir Sater faz uma participação especial hoje e o compositor de Romaria, Renato Teixeira, toca no domingo.''''Entre 1979 e 1980, eu morava na Vila Madalena e lá conheci Almir Sater, Tetê e Alzira Espíndola, Carlão de Souza, que hoje toca com o Almir, e um grupo baiano chamado Bendegó, formado pelo Gereba e o Capenga, que também tocavam violões de 12 cordas. Resolvemos fazer um espetáculo no teatro Lira Paulistana. O show foi chamado de Vozes e Violas. Ali começava uma tentativa de tentar reunir em torno da viola brasileira, músicos que estavam se dedicando a esse gênero'''', relembra Passoca. Com o passar do tempo, o músico encontrou mais pares pelo Brasil afora (não necessariamente no meio do sertão), como Roberto Corrêa, de Brasília, Renato Teixeira, de Santos, e os representantes do ''''rock''''n''''roça'''' Matuto Moderno, que mistura até elementos eletrônicos às suas composições, de São Paulo - e sentiu a necessidade de refazer tal projeto com todos esses responsáveis pela propagação da música brasileira de viola.''''A sonoridade desse estilo hoje já não é só regional, não é só sertaneja, pois incorpora diversos outros elementos. O desafio é tentar incorporar a modernidade na viola, considerando sempre o passado próximo da história que gira em torno desse instrumento'''', diz Passoca, que vai conduzir todo o espetáculo. As clássicas e tocantes Tristezas do Jeca, de Angelino de Oliveira, Romaria e Amanheceu, de Renato Teixeira, Trem do Pantanal, de Geraldo Roca e Paulo Simões, assim como aquelas que denotam a presença do olhar singelo de uma alma caipira na cidade, como Relógio da Paulista, de Passoca e Guga Domenico, são apenas algumas das canções que devem emocionar nos três dias de shows.Serviço Viola Bem Temperada. Auditório Ibirapuera (800 lug.). Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 2, Parque do Ibirapuera, 5908-4299. Hoje e amanhã, às 21 h; dom.,18h. R$ 30

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