''Traço superior do acontecimento''

A prosa euclidiana recorre a recursos visuais e rítmicos para unir ciência e arte na descrição dos fatos

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

A prosa de Euclides da Cunha não é menos controversa do que suas opiniões sobre raça e progresso. Mais do que em qualquer outro clássico brasileiro, inclusive Guimarães Rosa, ela tem sido um obstáculo para muitos leitores, tão árido e abafado quanto a travessia de Queimadas para Canudos. Por sinal, seu estilo é comumente associado à vegetação da caatinga, por seus galhos tortuosos, mas também poderia ser à floresta amazônica, pois caudaloso e superlativo. O fato é que suas dificuldades podem ser transpostas, sim, se o leitor chegar a ela preparado, e não como o Exército ao sertão baiano; e do lado de lá vai encontrar uma realidade poderosa, marcante, com um arsenal de recursos que o idioma não via desde o Padre Vieira.Isso não é desculpar os excessos de Euclides. O grande crítico da época, seu amigo José Verissimo, em mais de uma resenha se queixou das inversões sintáticas e dos períodos entrecortados. Euclides reconheceu, mas disse que já não tinha como se livrar desses "estigmas". Se atentamos para seus textos dos últimos anos, depois da viagem à Amazônia em 1905, percebemos que ele tentou frear mais, interpondo número maior de frases sintéticas, mais coloquiais, como "o Purus é um enjeitado". Mesmo assim, lá está seu fraseado extenso, grandiloquente, suas mesóclises ("revelou-se-lhe") e aquilo que a meu ver são seus maiores problemas: o vocabulário, mais do que amplo, repleto de nomes pomposos ao lado de termos técnicos ("esterilizam-se os ares urentes"); e a profusão de advérbios e adjetivos, uma mania gongórica de sempre acompanhar cada substantivo de pelo menos um qualificativo.Não é o caso de dizer que sem tais excessos o estilo não seria o mesmo, não significaria a mesma experiência estética e existencial de sua leitura. Uma boa edição a deixaria ainda mais absorvente. Mas o que quero dizer é que a recompensa de tais esforços ao leitor - ainda que ele tome a razoável decisão de seguir mesmo quando não compreende todas as palavras, a fim de se manter atado ao ritmo acima de tudo - é incalculável. Há momentos tão belos na prosa de Euclides que dá vontade de ler em voz alta. Não por ser uma prosa poética, no sentido de uma prosa que tem métricas e rimas como as da poesia, mas por ser uma combinação de prosa poética com prosa científica. Sem esta, o estilo de Euclides não iria tão longe. Afinal, mais do que leitor de John Milton, Victor Hugo e Castro Alves, ou de beletristas como Coelho Neto e naturalistas como Zola, ele era leitor de cientistas viajantes como Alexander Von Humboldt e Alexandre Rodrigues Ferreira, que faziam descrições às vezes líricas da geologia, fauna e flora; e de social-darwinistas como Herbert Spencer e Benjamin Constant, com suas argumentações em torno de etnias evoluídas. Ponha mais uma pitada dos grandes historiadores do século 19, como Michelet e Carlyle, e as influências principais estão pesadas. Mas o estilo de Euclides, como o de Machado ou Rosa, não pode ser explicado assim; é muito próprio para ser visto como simples combinatória de influências. Com o ideal de unir ciência e arte, classicismo e romantismo, ele ousou e inventou como poucos.Uma das linhas de força de seu estilo é a colagem de gêneros. Ora ele escreve como geógrafo, ora como historiador; ora como romancista, ora como ensaísta. É também o primeiro grande jornalista literário brasileiro, porque sempre tenta se ater aos fatos; melhor ainda, que permitiu que os fatos mudassem sua opinião, ainda que continue marcada em boa parte por preconceitos de época. Sua narrativa de guerra, A Luta, é um prodígio porque encadeia os eventos sem deixar de construir pontes intermitentes com o que disse antes em A Terra e O Homem. Euclides sempre abre seus textos com o "macro", com a descrição panorâmica de uma região, espécie de Google Earth em verbo. Depois vai fechando sua lente no grupo social e, por fim, em indivíduos, como a sertaneja de mangas sujas de sangue que teve pai e filho degolados pela República. A discordância sobre suas generalizações não tira a força dessa convergência.Sua saudável ambição em Os Sertões era notar o que ninguém mais notara, o "traço superior do acontecimento". E "traço" aqui remete tanto à sua visada geológica (como a de Darwin), que destaca a topografia insular do arraial (a qual, impedindo a "mestiçagem extrema", teria preservado a bravura estoica dos jagunços), como à sua escrita pictórica. Ele recorre a todas as figuras de linguagem e retórica que conhecemos (metáfora, símile, antítese, hipérbole, enumeração, aliteração, até ironia e oxímoro) e a uma enorme variação de ritmos, a justaposições e cortes - que hoje chamamos de cinematográficos, embora nenhum cineasta os recrie. Isso acentua as expressões memoráveis: "o espasmo assombrador da seca"; "arrastando a carcaça claudicante"; "cada parede se rachava em seteiras"; "peitos broqueados à bala ou sarjados à faca".Quando vai à Amazônia, não por acaso, se refere a ela como o maior "quadro" da Terra, embora lamente sua falta de linhas verticais e variação cromática. No célebre texto Judas Asvero enfeixado em À Margem da História, é óbvia sua preocupação em transcrever a cena com a marcação de todos os pontos no espaço, desenhando a composição, e com alternância de frases breves e longas que lhe dá movimento: "Caminha. Não para. Afasta-se no volver das águas. Livra-se dos perseguidores. Desliza, em silêncio, por um estirão retilíneo e longo; contorneia a arqueadura suavíssima de uma praia deserta." Extensivo e intensivo, Euclides enxergava mais drama onde os outros só viam a trama.

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